As coisas à solta.
Um horror incerto, esbatido, pelas certezas, pelos dogmas, pelos outros.
Ao não ser o míudo, procurar garantias?
Alimentando-se de coisas que vão fazendo predizer as seguintes.
Mas não, claro que não...
Ser o volante, o guia. Explorar sem explorar, ser sem querer ser, sem ter de procurar ser.
Mas o que é feito?
Sei lá o que é feito.
Sei lá de que sou feito.
Não sei bem o que estou a escrever.
E sobretudo, já não sei como é que passou tanto tempo...
Desde que fui.
Desde que passei a ser fracções, quando fui.
Acima de tudo, a simplicidade dos laços passou-me a pesar como uma coisa disforme. Em deficiência, vezes houve em que esganei as mãos por me esquecer da transparência táctil do tecido. Outras, doía-me a ponta da agulha pressentida, ao enrijecer a pele, membrana defensiva e estéril, embebida em vagos cremes de identidade perdida, emprestada às sucatas de Ninguém-Alguém. Contra o novelo fatal, contra a dôr pungente da rotura, a agressão total que assumia [a insignificância | o excesso de nada | a própria fragilidade] expostas, contra a sarjeta que era tudo, e contra a mentira que eu sentia ser tudo, um adiamento do rebaixamento, uma absoluta dôr de mim, uma em descrença esmigalhada pessoa, com forças para procurar, para ir tirar um curso, para chegar lá e ter um pulso, desde o primeiro dia, um pulso cerrando os nervos, tendões vampirescos de presença, a energia que é as cinzas, "o que não mata, torna-nos mais fortes", mas doía, doía sempre, o limite da voz, o limite da segurança, era o limite da cidade, a falésia do espírito, a dôr do caminho. Aproximação a qualquer coisa, as brasas lá dentro, a fuga por reinvenção, rotina, postura. O pé ante pé das pequenas palavras trocadas, tangente à dôr, a meio evitamento. Mas nas horas da morte, no vazio, na solidão, mais tarde ou mais cedo, o chamamento do Novo e do Comércio de almas abriram uma e outra brechas, rasgaram o papel machê do presente, e destapada, a situação foi voltar ao mais íntimo nível, e a esse mesmo, confrontar a distância, chocar com ela. E neste ciclo se repetiram novas crenças, perante a progressiva concepção das novas envolventes. E neste ciclo se reformaram mais operários da essência, até que o lar ditou uma desistência por assumir, um reconfigurado palácio de nenhures, uma rotina pintalgada de hábitos-ócios por cima do vazio. Até que um dia, das reticências de emoção e sonho, o esporádico tiroteio das amizades (periféricos amores, conceitos enlameados próximos) tornou-se bombardeio, disparidades anularam-se em espiral de alma, e as novas rotas, na paz fria e simples das manhãs, do sol, da rua, essas as vagas redentoras enquanto tais.
E nada disto basta como biografia, nada disto é mais que abstractas veias do que se conseguiu ou se pôde ser, ou ir sendo.
artigos de excursões sem fim nem princípio, no algo enevoado horizonte do Não, o desprezo do típico como inegável paixão..
Mais distensões de mim:
Outros que tais:
um Abade às Fatias
, the bittersweet cherry flavour
, sobreposições no cenário-Hugo
not your average Lady , Scriptum Tremens , um ser buscando ser , Roman Veli
not your average Lady , Scriptum Tremens , um ser buscando ser , Roman Veli
domingo, dezembro 17, 2006
quinta-feira, outubro 26, 2006
Hoje, quedo-me triste como um píncaro. Cansado, maquinalmente. Os meus bocadinhos de diferença esquecida, de sensações e consistência diluída num haver gente e mundo, transtornos invísiveis na fragilidade com que estilhaço e perco a conjectura paralela, esses pedaços de crosta que me doem na pele ao irem caindo, desfazendo-se liberdades vãs pelo tornado fora, mortes prévias sem cemitério...
A dureza da impotência, a dôr da simplicidade, a fome de não ter fome, de não engolir as mentiras todas, de não me engolir escassez. A aspereza de tudo isto vomitar o seu significado, em todo o externo, para o fora-fim. Dejecto de fragilidade.
E depois, há o ninguém (nem remoto) em que recaia isto com franqueza, em que recaia o eco de uma mensagem talhada, não há um verosímil sequer que me corte as veias deste palpitar suicida que é o quarto sem dormir.
Resta uma conclusão sem palato deste remoer-me frugal que inconcluso resta.
A dureza da impotência, a dôr da simplicidade, a fome de não ter fome, de não engolir as mentiras todas, de não me engolir escassez. A aspereza de tudo isto vomitar o seu significado, em todo o externo, para o fora-fim. Dejecto de fragilidade.
E depois, há o ninguém (nem remoto) em que recaia isto com franqueza, em que recaia o eco de uma mensagem talhada, não há um verosímil sequer que me corte as veias deste palpitar suicida que é o quarto sem dormir.
Resta uma conclusão sem palato deste remoer-me frugal que inconcluso resta.
De finais de Setembro:
Um palácio circunstancial e hoje. Paredes decoradas de lembranças anímicas. Corredores sangrentos de bombeando anémicos o labirinto. Um átrio de varandas viradas para o interior. Uma fonte ao centro, que chora o tempo a escorrer. O burburinho da oração a diluir-se nele, mentiroso ritual humedecendo-se. A sanidade forçada da relva sintética. Lá no alto, o sol consciente emudece-se de desígnio, e a liberdade desmorona-se neste intervalo edificado que aparta ruas e movimentos.
Um palácio circunstancial e hoje. Paredes decoradas de lembranças anímicas. Corredores sangrentos de bombeando anémicos o labirinto. Um átrio de varandas viradas para o interior. Uma fonte ao centro, que chora o tempo a escorrer. O burburinho da oração a diluir-se nele, mentiroso ritual humedecendo-se. A sanidade forçada da relva sintética. Lá no alto, o sol consciente emudece-se de desígnio, e a liberdade desmorona-se neste intervalo edificado que aparta ruas e movimentos.
De 29 de Agosto:
O ar, de necessidade carregado,
torna-se a pressão de deuses
indefinidos, talvez fáceis.
A ferramenta substitui o objectivo,
tendo por componente funcional
veicular acessos.
As hipóteses percebidas legislam
a formação do fluxo de energias
em si inteligentes.
Por inconstantes emoções esvoaçado
o céu desaba, feito de quimeras
que já foram outras.
As coisas nascem o que têem sido,
transferidas cargas do querer
que é o condicionamento.
A meia meta se repete a vida,
produto passeio por terrenos
alguns, pouco férteis.
O ar, de necessidade carregado,
torna-se a pressão de deuses
indefinidos, talvez fáceis.
A ferramenta substitui o objectivo,
tendo por componente funcional
veicular acessos.
As hipóteses percebidas legislam
a formação do fluxo de energias
em si inteligentes.
Por inconstantes emoções esvoaçado
o céu desaba, feito de quimeras
que já foram outras.
As coisas nascem o que têem sido,
transferidas cargas do querer
que é o condicionamento.
A meia meta se repete a vida,
produto passeio por terrenos
alguns, pouco férteis.
terça-feira, setembro 26, 2006
O vício-sabores vem falar comigo. É escusado pintar o céu: a queda sem precipício, antagonismo impávido e, por fim, triste. As migalhas-reflexões não saciam o congénito existir ali, que se esquece de desígnios ou de entidade, concretizadas numa poda-fome que foi os momentos abruptos de continuação-tronco. A última análise é a esperança esquecida com o barco na margem oposta à travessia, enebulado rio-visão de lembrança azul.
quinta-feira, setembro 07, 2006
Não consigo calcetar a esplanada do supérfluo. As pedras que há são o tropeçar nelas. Não consigo calcorrear a escada do exagero, e o degrau que se segue é o desespero. Não consigo contornar este sinuoso fútil, acalento do mesquinho, dor de intromissão. Monumento antigo, hábito imposto, és o meu castigo, ruga no meu rosto... Erro acumulado, banalidade militar, és construção num estrado em suspenso, falta de ar. O provérbio social, irrequieto estéril. Toda esta transcrição de certezas erradas, esta prontidão oca, toda esta escola da voz alta, um nojo de cerco. Quando a realidade dos pensamentos se imiscui sonoridade, alguém me arranca a ponta da língua. A saliva dobra-se seca, o periclitante estabiliza-se hirto. Encostada a uma triste amurada, a arte espreita a paisagem por conquistar. O tempo imprime-se opaco.
segunda-feira, agosto 28, 2006
E vão uns traços algo banais de o serem, algo salientes em exageros relativos. Vagos traços de possibilidade hipotética.
Dia 18:
Tenho no centro de mim a resposta.
E que resposta...
Chama-se prazer, derivado da paz.
Hoje, acarinho-me enquanto duro.
Ça, c'est l'aujourd'hui.
Filosofias conscientes,
visões duras sentidas na pele,
as coisas que acontecem,
tudo à parte.
Eu sou o querer ter-te ao meu lado,
minha pessoa abstracta por vir,
meu Amor.
E para lá deste amor embriagante,
sem causa nem destino?
Este amor absoluto que tanto cega?
Um silêncio, hoje tímido,
hoje verdadeiramente inaudível...
mas sim, um silêncio,
e sobretudo uma voz calada;
uma construção em suspenso.
Dia 19:
Todo este grande manicómio,
todo este grande hospício
alberga-me a incerteza indecisa.
Tenho de voltar a tocar,
isso é certo.
A única ilusão que vale a pena
as vezes necessárias.
Já na realidade, é tentar -
É ir tentando,
quando for caso disso,
quando não houver premeditações
que a façam passar a ser uma outra tentativa,
uma de cumprimento.
Dia 22:
Este contraponto que prevalece antes de seja o que for, que se substitui ao futuro e corrói os inícios, desmorona as pontes, enfurece o vazio, despromove os preenchimentos...
Mais vale é não pensar nisso.
Agora:
E isso custa, especialmente quando há uma dinâmica social dos contentes instalada. Mas talvez eu seja fraco, ou enfraquecido, vá. Lá simples sou, em vários pontos de vista aprendizagens empíricas. De resto, sei que tenho potenciais determinados. Resta verificar na prática as medidas disto e daquilo, e balancear a coisa.
*
Dia 18:
Tenho no centro de mim a resposta.
E que resposta...
Chama-se prazer, derivado da paz.
Hoje, acarinho-me enquanto duro.
Ça, c'est l'aujourd'hui.
Filosofias conscientes,
visões duras sentidas na pele,
as coisas que acontecem,
tudo à parte.
Eu sou o querer ter-te ao meu lado,
minha pessoa abstracta por vir,
meu Amor.
E para lá deste amor embriagante,
sem causa nem destino?
Este amor absoluto que tanto cega?
Um silêncio, hoje tímido,
hoje verdadeiramente inaudível...
mas sim, um silêncio,
e sobretudo uma voz calada;
uma construção em suspenso.
Dia 19:
Todo este grande manicómio,
todo este grande hospício
alberga-me a incerteza indecisa.
Tenho de voltar a tocar,
isso é certo.
A única ilusão que vale a pena
as vezes necessárias.
Já na realidade, é tentar -
É ir tentando,
quando for caso disso,
quando não houver premeditações
que a façam passar a ser uma outra tentativa,
uma de cumprimento.
Dia 22:
Este contraponto que prevalece antes de seja o que for, que se substitui ao futuro e corrói os inícios, desmorona as pontes, enfurece o vazio, despromove os preenchimentos...
Mais vale é não pensar nisso.
Agora:
E isso custa, especialmente quando há uma dinâmica social dos contentes instalada. Mas talvez eu seja fraco, ou enfraquecido, vá. Lá simples sou, em vários pontos de vista aprendizagens empíricas. De resto, sei que tenho potenciais determinados. Resta verificar na prática as medidas disto e daquilo, e balancear a coisa.
*
sexta-feira, agosto 11, 2006
Tantas vezes, que me deixo sair de cena, abortar a segurança, a desobstruída vontade de entendimento, precisamente quando sinto ter algo para dizer, quando sinto ser o momento de avançar.
Um espírito que se dissipa no assombro da realidade, contrariado a curto prazo.
É só este, o traço irreflectido que vos trago hoje.
Um espírito que se dissipa no assombro da realidade, contrariado a curto prazo.
É só este, o traço irreflectido que vos trago hoje.
quinta-feira, agosto 10, 2006
Da mesma forma que há por aí tantas vidas em rodopio e sentimento, há por aí tantos grupos de amigos. Há algo de óbvio e natural na sua forma de lidar com o mundo, que passa por terem todos tido amigos com quem alimentar os traços básicos da sua maneira de estar na vida, com quem adquirir a noção íntima de segurança na posição, no trato, para poder dar-se a uma gestão inconsciente do seu trilho de vontades e hábitos praticamente próprios, sem sensação de novidade nem de perigo demasiado subjacentes.
Mas terá que ser sempre esta a história de uma pessoa normal?
O que me leva a pensar... E se nós formássemos um grupo de inimigos?
Queres ser meu inimigo?
Ora este sou eu: nasci num dia, e vivo num determinado sector da sociedade.
Agora já me podes odiar - comecemos!
Vamos tomar um café discretamente envenenado. Vamos jogar à pedrada. Vamos falar de insulto e difamação. Yuhu.
Não sei lá muito bem se isto cabe aqui no meu blog, é que...
"Ah, mas tu tens um blog."
Sim, parece-me óbvio. Vago, mas um blog.
"O teu blog.. mas tu, quem és?... Um ser vivo suponho..."
Sim, parece-me óbvio... Vaga, mas uma vida.
"Estou a ver."
Pois. Gostaste desta repetição de estrutura na resposta, do reforço (que é o padrão) da incompletude do conceito inserido, e do acréscimo em dramatismo (que é a pompa do inesperado) pelo crescendo de gravidade dessa incompletude, portanto. Ou pelo menos, sentiste que tal sublinhou o dito.
"Pois sublinhou."
Pois.
...
Se tivesse mesmo gente na minha cabeça com quem elaborar, dialogar!
Como dizia o Sr. Álvaro de Campos, "Se ao menos endoidecesse deveras!"
Mas terá que ser sempre esta a história de uma pessoa normal?
O que me leva a pensar... E se nós formássemos um grupo de inimigos?
Queres ser meu inimigo?
Ora este sou eu: nasci num dia, e vivo num determinado sector da sociedade.
Agora já me podes odiar - comecemos!
Vamos tomar um café discretamente envenenado. Vamos jogar à pedrada. Vamos falar de insulto e difamação. Yuhu.
Não sei lá muito bem se isto cabe aqui no meu blog, é que...
"Ah, mas tu tens um blog."
Sim, parece-me óbvio. Vago, mas um blog.
"O teu blog.. mas tu, quem és?... Um ser vivo suponho..."
Sim, parece-me óbvio... Vaga, mas uma vida.
"Estou a ver."
Pois. Gostaste desta repetição de estrutura na resposta, do reforço (que é o padrão) da incompletude do conceito inserido, e do acréscimo em dramatismo (que é a pompa do inesperado) pelo crescendo de gravidade dessa incompletude, portanto. Ou pelo menos, sentiste que tal sublinhou o dito.
"Pois sublinhou."
Pois.
...
Se tivesse mesmo gente na minha cabeça com quem elaborar, dialogar!
Como dizia o Sr. Álvaro de Campos, "Se ao menos endoidecesse deveras!"
segunda-feira, agosto 07, 2006
Enfim, não sei porque faço estes posts mastigados, pois do que fica explícito, eu próprio tenho de fazer um esforço para extrair os significados que queria dar aos símbolos... Se o consigo ao de leve, é mais só porque me lembro... Digo isto porque esta foi mais uma vez em que tal é atroz. O problema é quando faço a passagem entre significados, quando introduzo novos elementos que vêem no seguimento do propósito semântico já exposto, mas que se não estiver suficientemente estabelecido (e raramente o está) torna ainda mais vago o entendimento deles, e ainda mais vaga a coerência da sua correlação. Interrogo-me se alguma vez alguém consegue contornar totalmente as interpretações erradas? Espero pois que não se ponham a encontrar ideias perigosamente diferentes das minhas nos meus posts.
Mensagens subliminares, ou isso... Por favor não vão invadir a Espanha com uma fisga de atirar pastéis, e um penico na cabeça para proteger dos touros. Não afoguem os vossos quarto e sexto filhos em água potável e voem até ao maior deserto do Sudão para oferecer os seus pulmões a dois birmaneses que lá foram vender autocolantes do seu clube de voleibol para coleccionar, mas que se perderam do safari dos clientes após uma tempestade de areia, sendo que o tornozelo do primo de um deles tinha sido acidentalmente pisado por um elefante quando era tratador de um zoo algures na América Central.
Espero ter-me feito entender, que isto às vezes pode haver mal-entendidos, cuja possibilidade me passa ao lado quando escrevo, mas que às vezes mais tarde dou por ela.
Mensagens subliminares, ou isso... Por favor não vão invadir a Espanha com uma fisga de atirar pastéis, e um penico na cabeça para proteger dos touros. Não afoguem os vossos quarto e sexto filhos em água potável e voem até ao maior deserto do Sudão para oferecer os seus pulmões a dois birmaneses que lá foram vender autocolantes do seu clube de voleibol para coleccionar, mas que se perderam do safari dos clientes após uma tempestade de areia, sendo que o tornozelo do primo de um deles tinha sido acidentalmente pisado por um elefante quando era tratador de um zoo algures na América Central.
Espero ter-me feito entender, que isto às vezes pode haver mal-entendidos, cuja possibilidade me passa ao lado quando escrevo, mas que às vezes mais tarde dou por ela.
Fazer coisas
e despachá-las incompletas.
Falhar a estratégia do mundo.
É dormir que quero?
Nem isso - acho.
Certezas, muito menos...
o requinte não passa de as coisas vistas através do véu-nós.
Esquece quem queres ser
pois o não queres ser.
Estás a pegar em fogo-fátuos,
mas o amor de verdade é cego.
O amor de mentira é forte,
mas esvanece-se.
Assim que a mão deixa de ser mão,
sente-se a queimadura do tempo passado a segurar.
Assim se agarra na percepção.
Esquecer as tensões, as posturas,
essa falta de objectividade no desejo da vida
ao tratar o gesto-voz por objecto,
ao morder o engodo da situação.
Mas por trás da situação há uma outra,
por trás da mesma ainda outra, e por aí fora,
até que os engodos são outros
e as máscaras de tradição caíram uma a uma.
Mas e depois?
...
Depois, fecha-se este capítulo habitual,
em conivência com o que foi dito,
de certa forma por determinar.
E dói,
o facto de também não ter dito nada.
e despachá-las incompletas.
Falhar a estratégia do mundo.
É dormir que quero?
Nem isso - acho.
Certezas, muito menos...
o requinte não passa de as coisas vistas através do véu-nós.
Esquece quem queres ser
pois o não queres ser.
Estás a pegar em fogo-fátuos,
mas o amor de verdade é cego.
O amor de mentira é forte,
mas esvanece-se.
Assim que a mão deixa de ser mão,
sente-se a queimadura do tempo passado a segurar.
Assim se agarra na percepção.
Esquecer as tensões, as posturas,
essa falta de objectividade no desejo da vida
ao tratar o gesto-voz por objecto,
ao morder o engodo da situação.
Mas por trás da situação há uma outra,
por trás da mesma ainda outra, e por aí fora,
até que os engodos são outros
e as máscaras de tradição caíram uma a uma.
Mas e depois?
...
Depois, fecha-se este capítulo habitual,
em conivência com o que foi dito,
de certa forma por determinar.
E dói,
o facto de também não ter dito nada.
sábado, agosto 05, 2006
Ecos de Deus
I
Viagem universal
Alguém perdido num firmamento
vê o eclipse do requinte.
A cósmica luz cujo sustento
é a partícula que se sente
atravessar os espaços negros,
as cintilantes auras esbatidas,
essa luz de vôos íntegros
que torneia as várias coloridas
faces da matéria, de isto a lira,
à velocidade da luz se apaga.
Escurece, iluminando a mentira.
É a vida o que o vácuo esmaga.
II
A côr da dôr
A dor é réplicas do porvir
degeneradas, impressionismo,
pintalgadas telas do sentir,
representando o malabarismo
de existir. Azul a mágoa,
a púrpura raiva a tingir:
pedras atiradas à lagoa
de estar à beira do fingir.
III
Ecos de Deus
Deus espreita, na mão a ânfora,
e bebe uma poção sem esperança.
Divino é só o que vem lá de fora.
Solene é só a brisa que amansa.
Se tudo apodrece,
que apodreça também o requinte.
O silêncio é uma lira morta.
O ouvido, a consciência calejada.
Que o ar rasgue e desfolhe
isto.
I
Viagem universal
Alguém perdido num firmamento
vê o eclipse do requinte.
A cósmica luz cujo sustento
é a partícula que se sente
atravessar os espaços negros,
as cintilantes auras esbatidas,
essa luz de vôos íntegros
que torneia as várias coloridas
faces da matéria, de isto a lira,
à velocidade da luz se apaga.
Escurece, iluminando a mentira.
É a vida o que o vácuo esmaga.
II
A côr da dôr
A dor é réplicas do porvir
degeneradas, impressionismo,
pintalgadas telas do sentir,
representando o malabarismo
de existir. Azul a mágoa,
a púrpura raiva a tingir:
pedras atiradas à lagoa
de estar à beira do fingir.
III
Ecos de Deus
Deus espreita, na mão a ânfora,
e bebe uma poção sem esperança.
Divino é só o que vem lá de fora.
Solene é só a brisa que amansa.
Se tudo apodrece,
que apodreça também o requinte.
O silêncio é uma lira morta.
O ouvido, a consciência calejada.
Que o ar rasgue e desfolhe
isto.
E os relógios pulsam a pouco e pouco.
Não estou aqui a fazer nada;
estou a adiar o provável adiamento seguinte.
Tudo se consome, tudo se gasta, e na corrida de sempre, continuo parado.
A minha maior saliência é todo este estar parado,
rocha de aridez e erosão sem causa;
a erosão de ela mesma não ter uma causa.
Tudo é mormente o momento de agora, e uma estilística caverna de vício sem química.
E nem sequer tenho um grande sulfato que escrever.
Pequenez sem pena ou nada.
A tinta é falta de evitamento-liberdade.
Esborracha-se,
no ecrã impávido e implacável.
A cabeça só se soergue num patamar antigo,
de quando em quando,
para saber que não está à vista.
Cobrindo o pátio-novidade, um gigante mata-borrão
parado.
E diluo-me continuação,
entre aspas.
Sem.
Não estou aqui a fazer nada;
estou a adiar o provável adiamento seguinte.
Tudo se consome, tudo se gasta, e na corrida de sempre, continuo parado.
A minha maior saliência é todo este estar parado,
rocha de aridez e erosão sem causa;
a erosão de ela mesma não ter uma causa.
Tudo é mormente o momento de agora, e uma estilística caverna de vício sem química.
E nem sequer tenho um grande sulfato que escrever.
Pequenez sem pena ou nada.
A tinta é falta de evitamento-liberdade.
Esborracha-se,
no ecrã impávido e implacável.
A cabeça só se soergue num patamar antigo,
de quando em quando,
para saber que não está à vista.
Cobrindo o pátio-novidade, um gigante mata-borrão
parado.
E diluo-me continuação,
entre aspas.
Sem.
quinta-feira, julho 27, 2006
Sentado em casa, a perder horas,
a paciência é a metáfora
que se fecha e tranca
na chegada que ainda dura,
imensa, lânguida.
O não ser blindada
faz-me lembrar uma flor
com menos muitas pétalas,
ao descascar uma distância
de menos uma calma.
A pessoa e a carne capturadas
amplificam-se selectivamente
por sob a matéria moderna
que lhes faz sombra.
A hora esquece-se de mim.
Abandonada pelo pulsar,
a solidez é uma lâmina inútil
e nela, vaga, espreita
a imagem outra do desperdício,
hóspede num compartimento.
Quase encerrado aos que vêm,
mesmo que de um país inteiro,
alberga a ferrugem das chaves,
definido, e quase a estima
com a arquitectura acumulada.
É realidade,
o nome que figura
na placa que não é dianteira.
Embrião da indiferença,
o único contra-dialecto.
a paciência é a metáfora
que se fecha e tranca
na chegada que ainda dura,
imensa, lânguida.
O não ser blindada
faz-me lembrar uma flor
com menos muitas pétalas,
ao descascar uma distância
de menos uma calma.
A pessoa e a carne capturadas
amplificam-se selectivamente
por sob a matéria moderna
que lhes faz sombra.
A hora esquece-se de mim.
Abandonada pelo pulsar,
a solidez é uma lâmina inútil
e nela, vaga, espreita
a imagem outra do desperdício,
hóspede num compartimento.
Quase encerrado aos que vêm,
mesmo que de um país inteiro,
alberga a ferrugem das chaves,
definido, e quase a estima
com a arquitectura acumulada.
É realidade,
o nome que figura
na placa que não é dianteira.
Embrião da indiferença,
o único contra-dialecto.
segunda-feira, julho 24, 2006
Aí ficaram dois pequenos contornos esquecidos. Inspeccionem também as minhas partes alheias, transcrive mais algumas.
De dia 7:
A nós, privilegiados num ápice,
como nos sabe a pouco o português.
Como nos é poeira o dialecto.
Odeio alguém. Já não sei quem.
Os meus sentimentos são cacos
sem rótulo antigo nem inscrição.
Este poema é a mesma coisa,
um conjunto de fragmentos
do pensamento partido, rescaldo.
Fica apenas a escrita empilhada
de quem não tem mais nada para fazer,
e a noção patente de ela ter um sentido,
um sentido distante, sem as forças
para impôr a ordem à confusão,
que talvez seja o agora face às horas acumuladas.
A nós, privilegiados num ápice,
como nos sabe a pouco o português.
Como nos é poeira o dialecto.
Odeio alguém. Já não sei quem.
Os meus sentimentos são cacos
sem rótulo antigo nem inscrição.
Este poema é a mesma coisa,
um conjunto de fragmentos
do pensamento partido, rescaldo.
Fica apenas a escrita empilhada
de quem não tem mais nada para fazer,
e a noção patente de ela ter um sentido,
um sentido distante, sem as forças
para impôr a ordem à confusão,
que talvez seja o agora face às horas acumuladas.
quinta-feira, junho 29, 2006
Abro os braços ao ar vazio, indagantes, um como que grande provedor da demência. Aspiro largo como alguém. Detenho-me num sorriso desafiante, enquanto o tempo sonorífero me invade a estética.
Recolho-me numa larga cadeira de estar, e retraio os lábios num outro sorriso nostálgico e aborrecido. Chego aqui com a minha ponta humedecida, que se me depena escrita.
Contorno os charcos de mente, atravessando-os. Sou um enorme míudo aos pontapés na lama da noite, do alto do meu Vesúvio Lua. Detenho o súbito da insónia. A coroa de louros tempera a ribanceira abaixo de uma penosa idolatria chapinhada. E ambas fervem discretas...
O paragráfico do relógio é só mais um apetrecho. Visto-me de uns pés descalços, e sonho a rua e os pátios do alcance. Passam por mim as dobras vermelhas de uma margem aos poucos fluida, e procuro atravessar aos tropeções sem espalhafato.
A calma, a calma... Uma pirueta de alheio sem dança. Uma confluência dípolo de passado com futuro. O marco de uma estrada nele apoiada, nele repousante de extensão. A senha híbrida da refeição de bocados, uma pausa entrelaçada por lianas. Um urro distante e psicológico de selva surdina.
E desenrola-se... E ao frondoso se torna... E sublimiza-se a poeira melosa como um pequeno-almoço da apoteótica reflexão-dia de contrários. O premente pulso-próximo, alforreca a dar à praia, espuma de um efervescente espaçado e solene. Mas borbulha, rotineiramente...
Para quê? Retine a dormida. Exageros sem módico. O mole simples? O estável nulo? Para quê!
Recolho-me numa larga cadeira de estar, e retraio os lábios num outro sorriso nostálgico e aborrecido. Chego aqui com a minha ponta humedecida, que se me depena escrita.
Contorno os charcos de mente, atravessando-os. Sou um enorme míudo aos pontapés na lama da noite, do alto do meu Vesúvio Lua. Detenho o súbito da insónia. A coroa de louros tempera a ribanceira abaixo de uma penosa idolatria chapinhada. E ambas fervem discretas...
O paragráfico do relógio é só mais um apetrecho. Visto-me de uns pés descalços, e sonho a rua e os pátios do alcance. Passam por mim as dobras vermelhas de uma margem aos poucos fluida, e procuro atravessar aos tropeções sem espalhafato.
A calma, a calma... Uma pirueta de alheio sem dança. Uma confluência dípolo de passado com futuro. O marco de uma estrada nele apoiada, nele repousante de extensão. A senha híbrida da refeição de bocados, uma pausa entrelaçada por lianas. Um urro distante e psicológico de selva surdina.
E desenrola-se... E ao frondoso se torna... E sublimiza-se a poeira melosa como um pequeno-almoço da apoteótica reflexão-dia de contrários. O premente pulso-próximo, alforreca a dar à praia, espuma de um efervescente espaçado e solene. Mas borbulha, rotineiramente...
Para quê? Retine a dormida. Exageros sem módico. O mole simples? O estável nulo? Para quê!
quarta-feira, junho 21, 2006
De dia 13 (madrugada):
Estarei cheio de vitalidade?
Sei lá.
Mas cheio de, é uma expressão detentora de bastante, senão na verdade, então na carga de expressão e de hábito que acarreta.
Mini-coisas mini-pensadas, assim.
Sinto qualquer coisa esquisita, uma simplicidade no enleio teatral das emoções ligeiras fortes, aquele ímpeto quase jovial, dirigido para nenhures, numa transparente aura de imaginativo primeiro.
Como se alguém colasse mais uma pastilha elástica em torno do elo menos frágil que baloiça, místico ainda.
Realço apenas, de caneta marcadora a carregar o lápis vago, o muito lado por que andei, a quase oposta instabilidade outra, aquela que não esta, dual sem fronteiras, equivalente a um certo nível, na pausa do desgarrado invísivel.
E falo de ter andado, porque isto é uma espécie de retorno, esta minha nova casa de intransigência da mente de firme tendência para o estúpido.
Desleixes da dor que se finge adormecida?
Um gongo que soa inconcreto a cada esquina, minuto, pressuposto, guião social.
Característica disto: a sensação imensa de dispersão quando me arrasto. A sensação de excesso e de desnecessário quando me procuro calmo dizer sem imediato.
O meio faz-se capa, o "não um" puxa idênticas quantidades, e as cotovias cantam algures, sem terem nada a ver com tudo.
Porque o som pensa que manda.
Estarei cheio de vitalidade?
Sei lá.
Mas cheio de, é uma expressão detentora de bastante, senão na verdade, então na carga de expressão e de hábito que acarreta.
Mini-coisas mini-pensadas, assim.
Sinto qualquer coisa esquisita, uma simplicidade no enleio teatral das emoções ligeiras fortes, aquele ímpeto quase jovial, dirigido para nenhures, numa transparente aura de imaginativo primeiro.
Como se alguém colasse mais uma pastilha elástica em torno do elo menos frágil que baloiça, místico ainda.
Realço apenas, de caneta marcadora a carregar o lápis vago, o muito lado por que andei, a quase oposta instabilidade outra, aquela que não esta, dual sem fronteiras, equivalente a um certo nível, na pausa do desgarrado invísivel.
E falo de ter andado, porque isto é uma espécie de retorno, esta minha nova casa de intransigência da mente de firme tendência para o estúpido.
Desleixes da dor que se finge adormecida?
Um gongo que soa inconcreto a cada esquina, minuto, pressuposto, guião social.
Característica disto: a sensação imensa de dispersão quando me arrasto. A sensação de excesso e de desnecessário quando me procuro calmo dizer sem imediato.
O meio faz-se capa, o "não um" puxa idênticas quantidades, e as cotovias cantam algures, sem terem nada a ver com tudo.
Porque o som pensa que manda.
sábado, maio 27, 2006
E às tantas, ao olharmos para fora, vemos coisas cá dentro a retorcer-se, a aspirar o sopro tão esperado de rememoração com que esboça um sorriso-emoção, repegam-se as pequenas pás-desejos com que se procura revolver a eternidade numa imagética de vigas-passagens dos edifícios sinfónicos, que são as várias recordações metafísicas em aliança afinada e peculiarmente aliança.
As palavras são disso o melhor exemplo: escrevem a garra que procura não deixar o andamento-eu expirar em sequência, o mestre-de-obras que grita intransigente na presença do fim do turno, enquanto os trabalhadores viram costas intangíveis.
E é isto. O caminho retrilhou-se sob um pé de obsessão mais firme. Em tudo, a mesma intemporalidade, a mesma propensão à chama, e, tendo a vida por desilusão impotente, a mesma susceptibilidade maciça nos reflexos de privação.
As palavras são disso o melhor exemplo: escrevem a garra que procura não deixar o andamento-eu expirar em sequência, o mestre-de-obras que grita intransigente na presença do fim do turno, enquanto os trabalhadores viram costas intangíveis.
E é isto. O caminho retrilhou-se sob um pé de obsessão mais firme. Em tudo, a mesma intemporalidade, a mesma propensão à chama, e, tendo a vida por desilusão impotente, a mesma susceptibilidade maciça nos reflexos de privação.
domingo, maio 07, 2006
As coisas são tantas vezes tensas e implacáveis. Sofro em tudo a austeridade. Os míudos em redor brincam às atitudes rápidas, certeiras e completamente ocas. Como lobos, exploram a ausência de moderação, renegam a compreensão do que lhes é diferente, e em tudo o que lhes não é estímulo à visão social pré-fabricada das interacções em voz alta e precipitada, o seu edíficio emancipado, vêem a ovelha a dilacerar num surto rápido, deixando para trás o trilho sem espaço para remorsos. No banco da frente, o ar carregado transpira migalhas de memórias contraproducentes, uma conjugação de esforços antigos levianamente inutilizados. O vazio absorve essa mesma atmosfera e nutre-se bloqueio policial, colete de forças, ou qualquer outra imagem igualmente expressiva para o internamento da liberdade.
Após o passeio de autocarro, extenua-se o ar condicionado, sacode-se aos poucos a electricidade estática dos membros entorpecidos, e disseca-se a dôr para que o vento a dissipe nas entranhas, ao passo progressivamente cântico, prenúncio de sanidade enquanto simples.
Um quadro móvel de sentimentos e imobilidades que existem, e que por isso devem figurar.
Após o passeio de autocarro, extenua-se o ar condicionado, sacode-se aos poucos a electricidade estática dos membros entorpecidos, e disseca-se a dôr para que o vento a dissipe nas entranhas, ao passo progressivamente cântico, prenúncio de sanidade enquanto simples.
Um quadro móvel de sentimentos e imobilidades que existem, e que por isso devem figurar.
domingo, abril 23, 2006
uma espécie de comoção húmida
o terreno charco lodo da vida antiga
o pouco espaço de um mergulho correnteza
a falta de acção
contrapostas pontualidades longas sem alma
conspurcação reactiva
o súbito céu, por entre o nublado que se rompe em choro
um sumário de tema perdido,
uma noite sem tema
a apenas meia dor dos farrapos embebidos em clorofórmio
uma noite ébria de vazio
a apenas meia dor dos farrapos secos de emoção
a meia dor de já só poder ser meia
a dor da lembrança ser na verdade o esquecimento
a reinvenção que dita o difuso espectro entre neurónios
e tilinta nas suas arestas desafinadas
perdido que está o sentido,
a emoção da verdade
sem capas, sons ou brilhos mentirosos...
e tilintam palavras entidade abaixo
perdida que está a identidade,
o sorriso do indefinível
não ter personalidade trejeito mania...
anda mesmo chato de se repegar
o objecto no chão andante
escada rolante da derrota
caída,
recaída
o terreno charco lodo da vida antiga
o pouco espaço de um mergulho correnteza
a falta de acção
contrapostas pontualidades longas sem alma
conspurcação reactiva
o súbito céu, por entre o nublado que se rompe em choro
um sumário de tema perdido,
uma noite sem tema
a apenas meia dor dos farrapos embebidos em clorofórmio
uma noite ébria de vazio
a apenas meia dor dos farrapos secos de emoção
a meia dor de já só poder ser meia
a dor da lembrança ser na verdade o esquecimento
a reinvenção que dita o difuso espectro entre neurónios
e tilinta nas suas arestas desafinadas
perdido que está o sentido,
a emoção da verdade
sem capas, sons ou brilhos mentirosos...
e tilintam palavras entidade abaixo
perdida que está a identidade,
o sorriso do indefinível
não ter personalidade trejeito mania...
anda mesmo chato de se repegar
o objecto no chão andante
escada rolante da derrota
caída,
recaída
sexta-feira, abril 14, 2006
E procurava viajar pela aproximação conceptual daquilo cuja consistência me era estrangeira.
Depois, às vezes, deixava-me arrastar pelo vento em pretensão a tornado.
A submissa verdade em suspenso baloiçava, de um ramo antigo e débil.
Quanto mais se definia, pelo primor do hábito e da adaptação involuntária pensada, o modelo usurpava-se do objecto e desfocava-o ao dar-lhe uma resolução.
A natureza misticamente morta do passado do futuro espreitava pelas frestas da janela fotográfica e soprava, de esquecida, a brisa recém-dissolvida da claridade fresca invisível.
A reflexividade do imperceptível, antónimo de imprecisão, fazia-se sentir póstuma e analíticamente (ao não se fazer sentir, como é evidente).
O mistério ocultava-se deixando de o ser, para que mais tarde pudesse regressar em força, com os braços pendentes, brandos e desfolhados após a força da tempestade.
Um cérebro, reaproveitado corpo de reflexão recriativa, refinar-se-á contraste enquanto mente dramática de lembranças do comando disseminado posterior pela funcionalidade impaciente, sobejando na beira do prato de alma a própria, prato de propriedade no sentido possessivo da palavra, pela liberdade, fim de míngua.
Mas enquanto isso, só a antevisão entrincheirada povoará uma espécie de guerra sem oponentes, conjunto de repetições de ruídos que perderam os tiros por disparar, confusos por isso, disfarces por isso.
Depois, às vezes, deixava-me arrastar pelo vento em pretensão a tornado.
A submissa verdade em suspenso baloiçava, de um ramo antigo e débil.
Quanto mais se definia, pelo primor do hábito e da adaptação involuntária pensada, o modelo usurpava-se do objecto e desfocava-o ao dar-lhe uma resolução.
A natureza misticamente morta do passado do futuro espreitava pelas frestas da janela fotográfica e soprava, de esquecida, a brisa recém-dissolvida da claridade fresca invisível.
A reflexividade do imperceptível, antónimo de imprecisão, fazia-se sentir póstuma e analíticamente (ao não se fazer sentir, como é evidente).
O mistério ocultava-se deixando de o ser, para que mais tarde pudesse regressar em força, com os braços pendentes, brandos e desfolhados após a força da tempestade.
Um cérebro, reaproveitado corpo de reflexão recriativa, refinar-se-á contraste enquanto mente dramática de lembranças do comando disseminado posterior pela funcionalidade impaciente, sobejando na beira do prato de alma a própria, prato de propriedade no sentido possessivo da palavra, pela liberdade, fim de míngua.
Mas enquanto isso, só a antevisão entrincheirada povoará uma espécie de guerra sem oponentes, conjunto de repetições de ruídos que perderam os tiros por disparar, confusos por isso, disfarces por isso.
sábado, abril 08, 2006
E eis que, a súbito, caem panos sobre panos sobre panos, cada um de várias cores distintas das anteriores, formando padrões de confusão garrida e junta qual pilar não lato, fundamento da estética, flores para os meus ouvidos em embalos líricos de nervo esvaído, fio de aço polido da sua rigidez vibrante, braço de violino transformado em mão de alma acariciante, sonata de inconsistência absorta, mas sonata espasmo de ignorância vaga e indecisamente prazentosa em pós-explosões de paz, fulminante multicolor, torrente doce e indiscreta de lânguidas línguas de mãe hiena, perpetrando o animal em ferida de apaziguamento, a carne em beijo de antídoto metaquímico destilado do positivo no sentimento.
O que antes não fazia mal, com a intenção sôfrega, agora, em instantes ilesos, não faz mal, ao fazer toda a indiferença.
O mundo são arbítrios da ilógica, e nós seus plebeus de floresta vária.
O que antes não fazia mal, com a intenção sôfrega, agora, em instantes ilesos, não faz mal, ao fazer toda a indiferença.
O mundo são arbítrios da ilógica, e nós seus plebeus de floresta vária.
sexta-feira, abril 07, 2006
Estou, há um bocado, despegado de mim.
Irrita-me tanto, desespera-me tanto, ver emprestadas ao esquecimento todas as possíveis descobertas que houvera vindo a consolidar.
Mas a paciência é aborrecida, de tão improdutiva que é esta minha parede de tremura.
E de repente, do som de sonar mas reduzido de impacto, pelo que irritantemente insignificante na sua tortura, mergulha uma susceptibilidade interior, uma como que lágrima antiga que se acende por dentro do não existir já, nem nunca, e remexe de húmido o imenso despojo pastoso, sem contudo acordar o torpor de mim em si imerso sono.
Complicadamente me prossigo inclinação corporal na beira de uma mesa gigante e suja de restos de um almoço aflito de esmigalhadamente inconcluso, não bastante, mas igualmente imenso.
A nódoa disseca-se suja e complicada, para que eu ressurja pouco mais que nada.
Todo o compreender serve para descompreender, ao que se finge por hábitos, o enraizado do óbvio próximo por se arrancar para longe o fulcral.
Irrita-me tanto, desespera-me tanto, ver emprestadas ao esquecimento todas as possíveis descobertas que houvera vindo a consolidar.
Mas a paciência é aborrecida, de tão improdutiva que é esta minha parede de tremura.
E de repente, do som de sonar mas reduzido de impacto, pelo que irritantemente insignificante na sua tortura, mergulha uma susceptibilidade interior, uma como que lágrima antiga que se acende por dentro do não existir já, nem nunca, e remexe de húmido o imenso despojo pastoso, sem contudo acordar o torpor de mim em si imerso sono.
Complicadamente me prossigo inclinação corporal na beira de uma mesa gigante e suja de restos de um almoço aflito de esmigalhadamente inconcluso, não bastante, mas igualmente imenso.
A nódoa disseca-se suja e complicada, para que eu ressurja pouco mais que nada.
Todo o compreender serve para descompreender, ao que se finge por hábitos, o enraizado do óbvio próximo por se arrancar para longe o fulcral.
O veto da sensação (desta madrugada)
Sentir - sempre a condenação
de quem espera, em todos
os traços de momento. Lodos
que empenam a chama de dragão...
Pois tudo é aquele excesso
em que me ingresso, esforço
de monotonia em que torço
as pernas ilusórias. Não meço
a distância do arremesso - a meio
fica, com o seu valor; do divino
já nada em calor. É o teu destino,
ardente motor, arrefeceres-te freio...
Sentir - sempre a condenação
de quem espera, em todos
os traços de momento. Lodos
que empenam a chama de dragão...
Pois tudo é aquele excesso
em que me ingresso, esforço
de monotonia em que torço
as pernas ilusórias. Não meço
a distância do arremesso - a meio
fica, com o seu valor; do divino
já nada em calor. É o teu destino,
ardente motor, arrefeceres-te freio...
Fuga vertical (27.03)
O meu subtil
é o disfarce com que o mundo
no vão da escada assiste
ao desfile.
É assim vago
que vou subindo sem fundo
num topo onde nada existe,
nada afago.
Feita do resto,
a altura de que é oriundo
este mecânico despiste,
fim de incesto.
Sem qualquer queda,
o irmão exangue do mundo
que vão e terreno persiste
labareda.
O meu subtil
é o disfarce com que o mundo
no vão da escada assiste
ao desfile.
É assim vago
que vou subindo sem fundo
num topo onde nada existe,
nada afago.
Feita do resto,
a altura de que é oriundo
este mecânico despiste,
fim de incesto.
Sem qualquer queda,
o irmão exangue do mundo
que vão e terreno persiste
labareda.
quarta-feira, abril 05, 2006
Pois eis - outra vez -
o tal expectante
cheio de orações óbvias,
gramaticais
numa cadeira de cama
com a imaginação activa,
social.
Eles batem à porta,
vagabundos do espírito
reforçados de ténue
por causa do carrossel,
animalesco turbilhão plástico
eu
cheio de orações em surdina.
A medida certa
foi um charco,
os meus pés a pisá-lo;
isto, os penitentes chuviscos
em miniatura,
as minhas pernas a escorrê-los
sentadas.
Não esclareci a medida certa
da liquidez
métrica
da anti-métrica,
perdeu-se algo no espaço-entretanto,
e o eu buscá-lo é uma corrida
apertada
mas vaga e falsa de emoção,
pelo que não faz mal.
Já passei. Este é o meu pó,
à minha procura,
tossindo crónicamente a realidade
de que não existo,
por uns tempos.
Assim, existo
umas pernas hirtas
de cadeirão
e escorrego na casca de letras
da sopa de banana
vitamina,
pretensa a vital
mas vago e falso
vitral.
o tal expectante
cheio de orações óbvias,
gramaticais
numa cadeira de cama
com a imaginação activa,
social.
Eles batem à porta,
vagabundos do espírito
reforçados de ténue
por causa do carrossel,
animalesco turbilhão plástico
eu
cheio de orações em surdina.
A medida certa
foi um charco,
os meus pés a pisá-lo;
isto, os penitentes chuviscos
em miniatura,
as minhas pernas a escorrê-los
sentadas.
Não esclareci a medida certa
da liquidez
métrica
da anti-métrica,
perdeu-se algo no espaço-entretanto,
e o eu buscá-lo é uma corrida
apertada
mas vaga e falsa de emoção,
pelo que não faz mal.
Já passei. Este é o meu pó,
à minha procura,
tossindo crónicamente a realidade
de que não existo,
por uns tempos.
Assim, existo
umas pernas hirtas
de cadeirão
e escorrego na casca de letras
da sopa de banana
vitamina,
pretensa a vital
mas vago e falso
vitral.
segunda-feira, abril 03, 2006
Não consigo chorar.
Os meus olhos, árida raiva,
um deserto a ferver.
Cubro o mundo de dôr
num bunker meu,
só meu,
e refugio-me de vós todos,
formas encobertas, passantes,
bizarras;
dos capuzes sem feitiçaria
com que visto
as vossas cabeças em forma de capuz
com que passam ainda.
O meu refúgio é não conseguir
chorar.
Tento pôr os olhos em palavras,
mas engano-me, toldado.
O meu refúgio é doer absurdamente
nos olhos pretos
a recordação de saber chorar,
e é um refúgio que me tolda o ser,
e há também quem lhe chame morte,
antecipadamente.
Os meus olhos, árida raiva,
um deserto a ferver.
Cubro o mundo de dôr
num bunker meu,
só meu,
e refugio-me de vós todos,
formas encobertas, passantes,
bizarras;
dos capuzes sem feitiçaria
com que visto
as vossas cabeças em forma de capuz
com que passam ainda.
O meu refúgio é não conseguir
chorar.
Tento pôr os olhos em palavras,
mas engano-me, toldado.
O meu refúgio é doer absurdamente
nos olhos pretos
a recordação de saber chorar,
e é um refúgio que me tolda o ser,
e há também quem lhe chame morte,
antecipadamente.
sexta-feira, março 31, 2006
Nada mais é.
De mim, esta deconstrução que urge, mas que é ela própria uma obra despedaçada.
Quando a mente recorre apressada a passados e ligeiras, súbitas recordações que foram, como que justificando a acção seguinte apenas pelo facto de ter existido outra anterior, sei que se impõe um freio no cavalo da necessidade de me sentir seguro. Quando todo o nexo é o frémito e um conjunto disperso de pontadas de sensação por todo o longo da memória, é a altura de fazer prevalecer não o sono atabalhoado e portanto insónico, mas o sono leve e controlado como uma brisa que progressivamente retarda as cataratas de sangue veia abaixo, náusea acima; faz erodir-se o excesso de inutilidade composta, amontoada.
Depois, debastando um a um os elos, atravessam-se-me outras recordações mais profundas e íntimas, isto é, sem que correspondam a nada em especial, pura imagem de um espaço em que o estado de alma são as coordenadas, puro lado de lá do espelho, lado de lá da metáfora abstracta. São os primeiros sinais, conquanto ainda órgãos do antigo (mas que sou, microscópicamente, enquanto humano, senão um último conjunto de analogias ínfimas e indestrinçáveis em cordas bambas de reutilização?), de um fluxo de identidade mais calmo, um sangue mais regato.
Há sítios inclusive, conquanto simples de físicos, em que se ultrapassa com facilidade o factor representação e se admira a reciprocidade latente entre a descoberta-leitura e a lembrança a descoberto, tanto mais quão mais evocativo estiver o meu olho-intérprete.
É no póstumo dessas mesmas revelações que se revela, açambarcada de pouco, a sua afinal estrutura pontual e facilmente contável, pouco mais que um pouco de quantidade. E sobressaio, afinal, uma mera contagem de hábitos recorrentes, relacionados mais com o acaso que com a minha escolha, e de que tão pouco sobressai, figuras de um presépio sem Natal nem religião, uma cerâmica pintada de negro, o negro do ínfimo existencial que é a qualquer escala.
Capture-se porém, em mais uma fotografia de pouca dura, enquanto cores acinzentadas de efémero, o flash de espírito que as recuperações reflectem na montanha do caos em que o vale único é os olhos fechados.
Apesar de toda a minha raiva, ainda sou só uma ratazana na caixa.
Depois, alguém irá dizer - o que está perdido nunca pode ser salvo.
De mim, esta deconstrução que urge, mas que é ela própria uma obra despedaçada.
Quando a mente recorre apressada a passados e ligeiras, súbitas recordações que foram, como que justificando a acção seguinte apenas pelo facto de ter existido outra anterior, sei que se impõe um freio no cavalo da necessidade de me sentir seguro. Quando todo o nexo é o frémito e um conjunto disperso de pontadas de sensação por todo o longo da memória, é a altura de fazer prevalecer não o sono atabalhoado e portanto insónico, mas o sono leve e controlado como uma brisa que progressivamente retarda as cataratas de sangue veia abaixo, náusea acima; faz erodir-se o excesso de inutilidade composta, amontoada.
Depois, debastando um a um os elos, atravessam-se-me outras recordações mais profundas e íntimas, isto é, sem que correspondam a nada em especial, pura imagem de um espaço em que o estado de alma são as coordenadas, puro lado de lá do espelho, lado de lá da metáfora abstracta. São os primeiros sinais, conquanto ainda órgãos do antigo (mas que sou, microscópicamente, enquanto humano, senão um último conjunto de analogias ínfimas e indestrinçáveis em cordas bambas de reutilização?), de um fluxo de identidade mais calmo, um sangue mais regato.
Há sítios inclusive, conquanto simples de físicos, em que se ultrapassa com facilidade o factor representação e se admira a reciprocidade latente entre a descoberta-leitura e a lembrança a descoberto, tanto mais quão mais evocativo estiver o meu olho-intérprete.
É no póstumo dessas mesmas revelações que se revela, açambarcada de pouco, a sua afinal estrutura pontual e facilmente contável, pouco mais que um pouco de quantidade. E sobressaio, afinal, uma mera contagem de hábitos recorrentes, relacionados mais com o acaso que com a minha escolha, e de que tão pouco sobressai, figuras de um presépio sem Natal nem religião, uma cerâmica pintada de negro, o negro do ínfimo existencial que é a qualquer escala.
Capture-se porém, em mais uma fotografia de pouca dura, enquanto cores acinzentadas de efémero, o flash de espírito que as recuperações reflectem na montanha do caos em que o vale único é os olhos fechados.
Apesar de toda a minha raiva, ainda sou só uma ratazana na caixa.
Depois, alguém irá dizer - o que está perdido nunca pode ser salvo.
domingo, março 26, 2006
sábado, março 25, 2006
A mola
Na efemeridade da tentativa
que o deixa de ser,
a minha alma é a lasciva
mola do descrer.
Um absurdo momento sem côr
toma conta de mim.
Projecto todo o meu rancor
contra este fim.
Silencioso, o seu estrondo
preenche-me de vazio.
O tal efémero que não sondo
recolho, após o pavio.
Fragmentado, na eterna gaiola
a vida é a única sorte.
Esta mola não é bem uma mola;
é uma espécie de morte.
Na efemeridade da tentativa
que o deixa de ser,
a minha alma é a lasciva
mola do descrer.
Um absurdo momento sem côr
toma conta de mim.
Projecto todo o meu rancor
contra este fim.
Silencioso, o seu estrondo
preenche-me de vazio.
O tal efémero que não sondo
recolho, após o pavio.
Fragmentado, na eterna gaiola
a vida é a única sorte.
Esta mola não é bem uma mola;
é uma espécie de morte.
segunda-feira, março 20, 2006
Mas vou acreditando, às réstias, sem pensar nisso. Seja num eu mais compensado na alma, mais imperturbável no verbo, menos traído e menos traidor no estar. Seja num tu que não sei quem é, de braços abertos e ouvidos metafísicos e amorosos de compreensão. Seja em dias mais plenos de algo, de expressão, de feedback, de autenticidade no bom, e mais plenos de liberdade, sentida e consumanda.
Sei que tudo isso existe, sob alguma forma. O fundo de um poço fundo, voltei a deixá-lo há algumas milhas. E as suas piores vertigens são principalmente memórias, vazias dada a sua precisão. Agora, alterna-se escaladas sem aspereza com algum escorregadio (vestígios inseguros de humidade nas paredes do poço), nem sempre do mais ligeiro.
Deste panorama por conotar, inspira-me a sua existência para a vaga arte que é o dia. Ainda que se arredonde nula, existe, e eu com ela. Não sou uma minha criação, nem uma minha estrutura, mas existo. E vou existindo, e o principal vai sendo não me afastar do principal, não me deixar repartir, não me procurar contentar com fracções e mímicas suficientemente passivas e descomprometedoras de mim, por abominar cenários subconscientes e perigosos de crítica e menosprezo, de implícita hostilidade; não me subverter a qualquer hábito ou falso objectivo, diário ou momentâneo, demasiadamente imposto, que me vede a liberdade em geral, que permanentemente me tolde a clareza de sentimento, o nascimento de escolhas verdadeiras.
Mas chega de blá blá. Transcenda-se o papel-ecrã, em pretensão de hipóteses. Cumpra-se aquele que de algures, onde mora, vai vivendo.
(E que fique para outro dia, após o contra-relógio, a constatação final de não ter conseguido.)
Sei que tudo isso existe, sob alguma forma. O fundo de um poço fundo, voltei a deixá-lo há algumas milhas. E as suas piores vertigens são principalmente memórias, vazias dada a sua precisão. Agora, alterna-se escaladas sem aspereza com algum escorregadio (vestígios inseguros de humidade nas paredes do poço), nem sempre do mais ligeiro.
Deste panorama por conotar, inspira-me a sua existência para a vaga arte que é o dia. Ainda que se arredonde nula, existe, e eu com ela. Não sou uma minha criação, nem uma minha estrutura, mas existo. E vou existindo, e o principal vai sendo não me afastar do principal, não me deixar repartir, não me procurar contentar com fracções e mímicas suficientemente passivas e descomprometedoras de mim, por abominar cenários subconscientes e perigosos de crítica e menosprezo, de implícita hostilidade; não me subverter a qualquer hábito ou falso objectivo, diário ou momentâneo, demasiadamente imposto, que me vede a liberdade em geral, que permanentemente me tolde a clareza de sentimento, o nascimento de escolhas verdadeiras.
Mas chega de blá blá. Transcenda-se o papel-ecrã, em pretensão de hipóteses. Cumpra-se aquele que de algures, onde mora, vai vivendo.
(E que fique para outro dia, após o contra-relógio, a constatação final de não ter conseguido.)
domingo, março 19, 2006
Em palavras pequenas, reflecte-se melhor, não a verdade em si, mas pelo menos a leviandade com que se aborda o universo, a insignificância do que está escrito.
Ah, raça humana! Ah, homem!
Tão grande de variações absolutas no ao longo de. Tão mínimo de autonomia no afinal de contas. Tão mínimo de ti...
Mas o que é que eu quero?
Sei lá, quero lá saber...
Ah, raça humana! Ah, homem!
Tão grande de variações absolutas no ao longo de. Tão mínimo de autonomia no afinal de contas. Tão mínimo de ti...
Mas o que é que eu quero?
Sei lá, quero lá saber...
Aqui,
sozinho em casa
de novo.
Esta música,
fronteira.
Sem mim,
textos de alfândega
sozinha.
O sorriso
dócil
do tempo,
as carícias
do presente.
As palavras que ficam
sem mim
e sem significado,
sob um tecto.
O significado delas
já se soube qual é,
e não o é,
e não só por isso.
O antigamente
também já não é
o antigamente.
Nem tédio, nem certezas,
nem o grave cansaço.
Só um leve cansaço sozinho.
O tecto sobrepõe-se
ao presente,
nem dócil nem carrancudo.
Só cansado,
mas quando nos cai em cima,
não passa de um tecto leve.
A antiga vontade
é uma casa,
e as dores antigas
já nem antigas são
quando a vontade já só o é.
Neste condomínio citadino,
alguns tremores de terra
colectam a renda.
Mas o tecto são fendas
ao de leve,
sem cansaço.
Os outros habitantes
são as máscaras
da minha imaginação à janela.
A falta de imaginação
sopra ao de leve
na divisão espelhada da consciência,
onde acontece um sofá.
Tudo isto à parte
não sei,
não sei.
Talvez
o soubera.
Provavelmente.
Não sei.
sozinho em casa
de novo.
Esta música,
fronteira.
Sem mim,
textos de alfândega
sozinha.
O sorriso
dócil
do tempo,
as carícias
do presente.
As palavras que ficam
sem mim
e sem significado,
sob um tecto.
O significado delas
já se soube qual é,
e não o é,
e não só por isso.
O antigamente
também já não é
o antigamente.
Nem tédio, nem certezas,
nem o grave cansaço.
Só um leve cansaço sozinho.
O tecto sobrepõe-se
ao presente,
nem dócil nem carrancudo.
Só cansado,
mas quando nos cai em cima,
não passa de um tecto leve.
A antiga vontade
é uma casa,
e as dores antigas
já nem antigas são
quando a vontade já só o é.
Neste condomínio citadino,
alguns tremores de terra
colectam a renda.
Mas o tecto são fendas
ao de leve,
sem cansaço.
Os outros habitantes
são as máscaras
da minha imaginação à janela.
A falta de imaginação
sopra ao de leve
na divisão espelhada da consciência,
onde acontece um sofá.
Tudo isto à parte
não sei,
não sei.
Talvez
o soubera.
Provavelmente.
Não sei.
domingo, março 12, 2006
E então os fluidos vêm, agarrar-nos na nossa imaterialidade e, aos poucos, arrancar-nos das órbitas de um corpo-olhar, branda mas não suavemente, como quem arranca um penso dolorosamente antigo sem a força da indiferença.
Da tona desse sítio líquido vemos a contrastante cegueira imersa em realidade; escoa-se-nos a presença sobre o chão por baixo, agora feito de vertigens vagas, indissolúveis neste eclipse de mar, nesta ausência cósmica de astros.
Somos então o seu reflexo, um brilho espectral e invisível, jorrando o negro intenso do vazio, o sangue escuro da física obsoleta.
Bóiando em queda, o ofegante dos pulmões afoga-se, a mágoa sonolenta esbate-se em fundos, e o coração dispersa-se neste etéreo buraco das lógicas cerebrais e emocionais.
Só a corrente turva nos comanda, de múltiplas direcções contrapostas, e de um sentido impenetrável, meramente perturbada por esporádicos espasmos-geisers, reminiscências neuróticas da lei da gravidade.
Nesta toca de compostos sem química, o mundo não cabe e, como ele, o tédio ou a pessoa são concretismos do lado de lá de uma varanda de alma sob a qual desce um baço abstracto, o vidro embaciado de nulidade pela respiração do indefinível.
Da tona desse sítio líquido vemos a contrastante cegueira imersa em realidade; escoa-se-nos a presença sobre o chão por baixo, agora feito de vertigens vagas, indissolúveis neste eclipse de mar, nesta ausência cósmica de astros.
Somos então o seu reflexo, um brilho espectral e invisível, jorrando o negro intenso do vazio, o sangue escuro da física obsoleta.
Bóiando em queda, o ofegante dos pulmões afoga-se, a mágoa sonolenta esbate-se em fundos, e o coração dispersa-se neste etéreo buraco das lógicas cerebrais e emocionais.
Só a corrente turva nos comanda, de múltiplas direcções contrapostas, e de um sentido impenetrável, meramente perturbada por esporádicos espasmos-geisers, reminiscências neuróticas da lei da gravidade.
Nesta toca de compostos sem química, o mundo não cabe e, como ele, o tédio ou a pessoa são concretismos do lado de lá de uma varanda de alma sob a qual desce um baço abstracto, o vidro embaciado de nulidade pela respiração do indefinível.
quarta-feira, março 08, 2006
De domingo (madrugada):
1. Estou debaixo da minha manta de cores mornas.
2. Tento que a minha manta se me agarre aos pés, pelo chão friorento.
3. Tento-me agarrar ao teclado e ser a manta em seu torno, mas não consigo assentar os pés.
4. Finco-me, hirto como os meus pés frios, e debruço-me sobre a luz do monitor.
5. Envolvo o teclado de noite, enquanto procuro as teclas para me aquecer.
6. Os meus pés tremem, friorentos pelo chão.
7. Em espiral de inércia, contorno o teclado enquanto o monitor arrefece.
8. Ironizo-me manta de inércia sem teclado.
9. Faço tenções de me ironizar no teclado, cobrindo assim a noite irónica.
10. Ironizo-me repórter, face a um monitor que emite frio, de tão parado.
11. Os meus pés fincam-se num chão não envolto em manta.
12. Arrefeço de fora para dentro, coberto de um teclado, e sou o reflexo de um monitor.
13. Envolvo a manta com a minha inquietude de teclas por premir no escuro.
14. Quase adormeço no calor da manta estática.
15. Quase que sonhando, recordo-me de mim, morna manta de tão frio.
16. Cozinho a escrita em lume brando com uma manta de objectividade.
17. Quase que desperto, escrevo a comunicação no teclado da cozinha.
18. Monitorizo a lanterna com que ilumino as teclas, atento.
19. O monitor nocturno fita-me desafiante.
20. O frio dos pés recorda-me também de mim, arrefecendo a manta de sonho pontas de dedos acima.
21. Observo a escuridão da manta de propósitos, e o monitor fita-me desafiante.
22. O brilho da lanterna fraca e intermitente recorda-me de mim, e as teclas primem-me um desabafo.
23. Ilumino, fraco e intermitente, o monitor frio.
24. Tremo de clareza nocturna face ao brilho das teclas.
25. Escureço o monitor enquanto sou uma luz de teclado, quase real.
26. A manta virtual embrulha-me os pés no chão real.
27. Presenteio-me com a visão enquanto me esqueço de um monitor de luz real.
28. Vejo através de mantas do passado.
29. O frio dos meus dedos visionários recorda-me de mim, e a minha manta de luz escurece-se.
30. Choro as minhas quantidades, fragmentadas sob uma manta de desinteresse solitário.
31. As minhas lágrimas são, na verdade, as teclas vãs e a cor baça da minha manta.
32. Choro o chôro, o verdadeiro, esmagado por debaixo de uns pés gelados.
33. Compilo-me, quase envolto em lágrimas frias, numa manta de numeração insuficiente.
34. Recolho o teclado, desligo o monitor e apago-me na noite.
1. Estou debaixo da minha manta de cores mornas.
2. Tento que a minha manta se me agarre aos pés, pelo chão friorento.
3. Tento-me agarrar ao teclado e ser a manta em seu torno, mas não consigo assentar os pés.
4. Finco-me, hirto como os meus pés frios, e debruço-me sobre a luz do monitor.
5. Envolvo o teclado de noite, enquanto procuro as teclas para me aquecer.
6. Os meus pés tremem, friorentos pelo chão.
7. Em espiral de inércia, contorno o teclado enquanto o monitor arrefece.
8. Ironizo-me manta de inércia sem teclado.
9. Faço tenções de me ironizar no teclado, cobrindo assim a noite irónica.
10. Ironizo-me repórter, face a um monitor que emite frio, de tão parado.
11. Os meus pés fincam-se num chão não envolto em manta.
12. Arrefeço de fora para dentro, coberto de um teclado, e sou o reflexo de um monitor.
13. Envolvo a manta com a minha inquietude de teclas por premir no escuro.
14. Quase adormeço no calor da manta estática.
15. Quase que sonhando, recordo-me de mim, morna manta de tão frio.
16. Cozinho a escrita em lume brando com uma manta de objectividade.
17. Quase que desperto, escrevo a comunicação no teclado da cozinha.
18. Monitorizo a lanterna com que ilumino as teclas, atento.
19. O monitor nocturno fita-me desafiante.
20. O frio dos pés recorda-me também de mim, arrefecendo a manta de sonho pontas de dedos acima.
21. Observo a escuridão da manta de propósitos, e o monitor fita-me desafiante.
22. O brilho da lanterna fraca e intermitente recorda-me de mim, e as teclas primem-me um desabafo.
23. Ilumino, fraco e intermitente, o monitor frio.
24. Tremo de clareza nocturna face ao brilho das teclas.
25. Escureço o monitor enquanto sou uma luz de teclado, quase real.
26. A manta virtual embrulha-me os pés no chão real.
27. Presenteio-me com a visão enquanto me esqueço de um monitor de luz real.
28. Vejo através de mantas do passado.
29. O frio dos meus dedos visionários recorda-me de mim, e a minha manta de luz escurece-se.
30. Choro as minhas quantidades, fragmentadas sob uma manta de desinteresse solitário.
31. As minhas lágrimas são, na verdade, as teclas vãs e a cor baça da minha manta.
32. Choro o chôro, o verdadeiro, esmagado por debaixo de uns pés gelados.
33. Compilo-me, quase envolto em lágrimas frias, numa manta de numeração insuficiente.
34. Recolho o teclado, desligo o monitor e apago-me na noite.
domingo, março 05, 2006
Paris de outrora...
Tuas belas cidades desmoronadas por pincéis prontamente belos, redentoramente belos. Teus contrapontos citadinos de êxtase indiscreto. Fizeste-te arte, e o desespero desorientado de cada único habitante em côr, a acesa fogueira do papel de seus diários. Em gritos-chispas foste a salvação e a perdição, incensos de atracção, chamariz do alastrar incontrolável. Fervilhando por toda a extensão cósmica desse país universal, amálgama de geografias com braços que se afogavam sobrehumanos, em lagos de chamas divinas e expectantes.
Foste a fornalha gigante da verdade, deste-nos a imagem garrida e indiscreta da expressão, e sublimaste-te a flor que se descarna das pétalas, em excessos, e atravessa os campos da mais abstracta realidade, já una e murcha em sua haste-dispersão, em vôos extensamente tu aos destroços, réstias de esquissos supra-pinturas, polinizando uniformidades de requinte consumado, requintadamente uniformes, quaisquer particularidades que desde então representaste.
Infiltrada por teu redor-tu, fizeste-o os resultados ampla e invariavelmente únicos e equivalentes, nos moldes mais livremente maduros e mágicamente sábios em que te foste experimentando barro, plasticina, plástica, vária, total, nula.
Fruto das raízes que tu, solo etéreo afora, plantaste milhentas, em fulgores-novidades-sementes, ostentas a tua queda com a indiferença de quem viveu séculos, e abordas a lei gravidade secular atravessando mais que todas as altitudes e climas, em rasgos levianamente delas embebidos, fatídicos e supremos de conhecimento.
És os traços subtis e avassaladores que a tua Dualidade gerou em ti, Coisas afora e História adentro.
...memorial-Paris de hoje.
Tuas belas cidades desmoronadas por pincéis prontamente belos, redentoramente belos. Teus contrapontos citadinos de êxtase indiscreto. Fizeste-te arte, e o desespero desorientado de cada único habitante em côr, a acesa fogueira do papel de seus diários. Em gritos-chispas foste a salvação e a perdição, incensos de atracção, chamariz do alastrar incontrolável. Fervilhando por toda a extensão cósmica desse país universal, amálgama de geografias com braços que se afogavam sobrehumanos, em lagos de chamas divinas e expectantes.
Foste a fornalha gigante da verdade, deste-nos a imagem garrida e indiscreta da expressão, e sublimaste-te a flor que se descarna das pétalas, em excessos, e atravessa os campos da mais abstracta realidade, já una e murcha em sua haste-dispersão, em vôos extensamente tu aos destroços, réstias de esquissos supra-pinturas, polinizando uniformidades de requinte consumado, requintadamente uniformes, quaisquer particularidades que desde então representaste.
Infiltrada por teu redor-tu, fizeste-o os resultados ampla e invariavelmente únicos e equivalentes, nos moldes mais livremente maduros e mágicamente sábios em que te foste experimentando barro, plasticina, plástica, vária, total, nula.
Fruto das raízes que tu, solo etéreo afora, plantaste milhentas, em fulgores-novidades-sementes, ostentas a tua queda com a indiferença de quem viveu séculos, e abordas a lei gravidade secular atravessando mais que todas as altitudes e climas, em rasgos levianamente delas embebidos, fatídicos e supremos de conhecimento.
És os traços subtis e avassaladores que a tua Dualidade gerou em ti, Coisas afora e História adentro.
...memorial-Paris de hoje.
quinta-feira, março 02, 2006
Dois reversos de medalha,
uma mesma idiossincracia.
Aborígenes em estepes desérticas
reerguem-se de comunidade,
vivem na paz do desejo adorador
de uma mente-amor.
São povos multifacetados e estéticas
de faceta impossível e ausente,
primária de aspecto,
complexa no sentimento insurrecto.
As planícies, de novo gente,
premeiam-se de novo gente.
Vamos viver o zénite.
Sim. Vamos zénite.
Escada zénite.
Só zénite.
Zénite.
Zzzz
É esta a essência da falta de filosofia.
Os pulmões de uma arte afogada.
O amor global, não carnal,
em espinhos de zénite.
Deuses e rosas,
deixem passar.
Zénite.
uma mesma idiossincracia.
Aborígenes em estepes desérticas
reerguem-se de comunidade,
vivem na paz do desejo adorador
de uma mente-amor.
São povos multifacetados e estéticas
de faceta impossível e ausente,
primária de aspecto,
complexa no sentimento insurrecto.
As planícies, de novo gente,
premeiam-se de novo gente.
Vamos viver o zénite.
Sim. Vamos zénite.
Escada zénite.
Só zénite.
Zénite.
Zzzz
É esta a essência da falta de filosofia.
Os pulmões de uma arte afogada.
O amor global, não carnal,
em espinhos de zénite.
Deuses e rosas,
deixem passar.
Zénite.
terça-feira, fevereiro 28, 2006
Num dia de sono e de debilidade do ar lento e pesado, trago-vos uma mera lufada. Não queremos ar que seja fresco à força, mas sim como uma extensão da naturalidade do respirar. Assim, bafejo-vos dois novos blogs de hálito a passado, pertinente por factual e impertinente por desactual, vaporizando assim as narinas da memória, bem como as da curiosidade, mais vaga ou menos. Mais perfumado ou menos (frequentemente odores algo preemptórios de ingredientes sem receita, dada a lassidão pontual de um por vezes carácter desprendido e iniciático), tal serve por um lado para desmembrar a hostilidade de um esquecimento colete de forças, por outro, para a curta figuração no teatro quotidiano, em máscara de Carnaval a tapar o impreciso da plateia.
Ultrapassando porém, sacudindo-os, os enleios intercalados de si, estradas-excursões expressivas, resumo num ponto partido em dois (por divinização da separação das águas, para além do sentido que efectivamente se flutua geral, seja ele o senso comum) o hoje ponto, recta de antes, e são-no, aos retalhos, a prosaicidade descritiva em lógicas com tendencial explicitude (esta) e o embebimento experimental da lógica supra-algébrica e humana, em tendencialmente poética aquisição de tradições expressivas, decadentistas em frequência (est'outra).
Exposta então a matéria-prima, as suas raízes temporalmente materiais, e as suas raízes orgânicamente razões. Deposta?
A vossa vez.
Ultrapassando porém, sacudindo-os, os enleios intercalados de si, estradas-excursões expressivas, resumo num ponto partido em dois (por divinização da separação das águas, para além do sentido que efectivamente se flutua geral, seja ele o senso comum) o hoje ponto, recta de antes, e são-no, aos retalhos, a prosaicidade descritiva em lógicas com tendencial explicitude (esta) e o embebimento experimental da lógica supra-algébrica e humana, em tendencialmente poética aquisição de tradições expressivas, decadentistas em frequência (est'outra).
Exposta então a matéria-prima, as suas raízes temporalmente materiais, e as suas raízes orgânicamente razões. Deposta?
A vossa vez.
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
Meio andamento
Caminho-me, teço-me mapa,
betoneira de alaridos
salpicos; estudo-me tecidos
geográficos, viro-me capa,
escrevo-me berro andante,
sufrágio cimento de ares
agora mixórdia de pares
ideia-acção; leio-me amante
de páginas rasgos soltos,
beijo-me história inscrita
na construção lenda infinita,
deito-me livros revoltos.
Tropeço-me cama de excesso
alicerce pontuado reticente;
duvido-me teatro estridente,
romance, edifício, possesso.
Sinaleiro, páro-me planos,
faço-me escala indefinida,
conjuro-me viagem esquecida,
fecho-me obra, caídos panos.
Caminho-me, teço-me mapa,
betoneira de alaridos
salpicos; estudo-me tecidos
geográficos, viro-me capa,
escrevo-me berro andante,
sufrágio cimento de ares
agora mixórdia de pares
ideia-acção; leio-me amante
de páginas rasgos soltos,
beijo-me história inscrita
na construção lenda infinita,
deito-me livros revoltos.
Tropeço-me cama de excesso
alicerce pontuado reticente;
duvido-me teatro estridente,
romance, edifício, possesso.
Sinaleiro, páro-me planos,
faço-me escala indefinida,
conjuro-me viagem esquecida,
fecho-me obra, caídos panos.
Sítio barulhento
Não permitirei que a intensidade
me dobre e me force a entrada,
por ser ela, de fútil, indesejada,
de fútil e de algo que me é saudade.
Não recordo ao certo, nem entendo
ao certo, mas nisso sou humano
e fútil. É mais profundo o engano
de que falo, ou assim penso. Ofendo
a minha sinceridade ao fazê-lo?
Tratar-se-á apenas de ter dos nervos medo,
de algum preconceito que não cedo,
de alguma falsa integridade o zelo?
Não sei; a luta continua, e o cansaço
com ela. Cada vez menos certo,
o raciocínio - cada vez menos me acerto.
Contudo, saberei esperar, conter o passo,
pois se não mo permitir, estarei perdido,
quer dizer, não é bem esse o termo,
mas acostumar-me a ouvi-lo, ter-mo
imposto, ao som que me não faz sentido,
não poderá ser bom. Mas será melhor
este disperso punho cheio de arranques
em falso, engasgados em ruído-estanques?
Não sei; não o sei já, já só um ror
de incertas notas musicais me traçam
o rascunho de alma em que figuram
as cores a preto e branco que seguram
o silêncio dos pensamentos, que se amassam
num empapado baço. Assim me encobre
a dúvida, e enquanto sou esta roupa
doem-me o estômago e a língua, sem polpa
para digerir ou saborear - torno-me pobre.
Não permitirei que a intensidade
me dobre e me force a entrada,
por ser ela, de fútil, indesejada,
de fútil e de algo que me é saudade.
Não recordo ao certo, nem entendo
ao certo, mas nisso sou humano
e fútil. É mais profundo o engano
de que falo, ou assim penso. Ofendo
a minha sinceridade ao fazê-lo?
Tratar-se-á apenas de ter dos nervos medo,
de algum preconceito que não cedo,
de alguma falsa integridade o zelo?
Não sei; a luta continua, e o cansaço
com ela. Cada vez menos certo,
o raciocínio - cada vez menos me acerto.
Contudo, saberei esperar, conter o passo,
pois se não mo permitir, estarei perdido,
quer dizer, não é bem esse o termo,
mas acostumar-me a ouvi-lo, ter-mo
imposto, ao som que me não faz sentido,
não poderá ser bom. Mas será melhor
este disperso punho cheio de arranques
em falso, engasgados em ruído-estanques?
Não sei; não o sei já, já só um ror
de incertas notas musicais me traçam
o rascunho de alma em que figuram
as cores a preto e branco que seguram
o silêncio dos pensamentos, que se amassam
num empapado baço. Assim me encobre
a dúvida, e enquanto sou esta roupa
doem-me o estômago e a língua, sem polpa
para digerir ou saborear - torno-me pobre.
Fragmentos... É quem sou agora mesmo. Vrummm vrummmm... Coisas! Eu digo coisas! Mas o tempo e os autocarros continuam. Chegado aqui, destruo-me de não ter escrito, fixado, emoldurado, tornado memorável aquele tudo que já não é, e que não foi. No fundo a tristeza é de não ser, independentemente de um tempo verbal contextual. Desejos simples? Calmas construídas? Projecções complexas? Brincadeiras? De qual das passagens sinto a falta? Mas que dia atribulado! Talvez de todas um pouco. Ora, e eu é que sei? Mal dei por isso, mas foi um dia de variedade considerável. E alguma produção. Mas, enfim, esta última... ficou sentada lá, no autocarro. E lá seguirá, orfã, olhada com indiferença curiosa até à paragem depois da última. Enfim, seguirei nesta outra carreira até breve.
Soneto a duas cores
Vergonha que me silencias,
és o silvo que me chicoteia
a poesia. Calças-me a meia
de chumbo, e tudo o que crias
é um tombo pesado, sem arte.
Tento andar mas não consigo -
o meu lombo está de castigo.
E nisto o meu coração se parte.
Oh, quando tudo o que eu tentava
era sonhar em alta voz...
Mas a vergonha profunda cava
em mim este abismo atroz.
Para o pintar de verde e rosa, o que eu não dava...
É que eram essas as cores com que sonhava.
Vergonha que me silencias,
és o silvo que me chicoteia
a poesia. Calças-me a meia
de chumbo, e tudo o que crias
é um tombo pesado, sem arte.
Tento andar mas não consigo -
o meu lombo está de castigo.
E nisto o meu coração se parte.
Oh, quando tudo o que eu tentava
era sonhar em alta voz...
Mas a vergonha profunda cava
em mim este abismo atroz.
Para o pintar de verde e rosa, o que eu não dava...
É que eram essas as cores com que sonhava.
Momento poético
Que eu, da silenciosa saliência
que é o lago deste dia
possa dizer "Enchi-a
com o sangue da poesia"
Espraiando-me, banho-me
nela, embora sem veia,
e rebolo-me e tenho-me
duna, embora sem areia.
E que eu sulque este palpitar
antes do tédio, e demarque
as rochas em torno deste lugar:
os canhões antes do desembarque.
Que eu, da silenciosa saliência
que é o lago deste dia
possa dizer "Enchi-a
com o sangue da poesia"
Espraiando-me, banho-me
nela, embora sem veia,
e rebolo-me e tenho-me
duna, embora sem areia.
E que eu sulque este palpitar
antes do tédio, e demarque
as rochas em torno deste lugar:
os canhões antes do desembarque.
Calma, que vens pela manhã dentro
infiltrar-te na minha circulação, corredores fora,
sê o caminhar nesta poltrona em que me sento,
torna-me o estontear das ilusões, sorridente,
faz-me sentir que esqueci todo o restante,
remete-me o incompatível para um outro momento.
Que o meu susceptível seja apenas face ao vento,
à brisa suave que chega lá de fora,
filtrado o despentear que incomoda
ao longo do ruído que alerta,
tudo isso, os narizes estampados na porta
enquanto eu sopro calmaria cá dentro.
E que este aroma a nada seja a respiração, bem fundo,
que esta luz de sombrinha clareie o tom de pele suave,
e que as conversas que não tive coexistam
neste ininterrupto burburinho, ténue canto,
a música dos recantos espaçosos.
Que eu me alheie perfume, claridade e harmonia.
infiltrar-te na minha circulação, corredores fora,
sê o caminhar nesta poltrona em que me sento,
torna-me o estontear das ilusões, sorridente,
faz-me sentir que esqueci todo o restante,
remete-me o incompatível para um outro momento.
Que o meu susceptível seja apenas face ao vento,
à brisa suave que chega lá de fora,
filtrado o despentear que incomoda
ao longo do ruído que alerta,
tudo isso, os narizes estampados na porta
enquanto eu sopro calmaria cá dentro.
E que este aroma a nada seja a respiração, bem fundo,
que esta luz de sombrinha clareie o tom de pele suave,
e que as conversas que não tive coexistam
neste ininterrupto burburinho, ténue canto,
a música dos recantos espaçosos.
Que eu me alheie perfume, claridade e harmonia.
O plácido da luz teve a contra-indicação de me dissipar da certeza no fraseio. Assim, sento-me e espero na cadeira em deslocação, assimptótico ao dia.
Choro dissabores com o meu riso. Choro dissabores e enterneço-me deles. Fito a passadeira do Nunca e atravesso-me tinta, nela branca. É esta a minha fronteira. Procuro a mãe da posição nos vultos frontais. A comunicação são os motores que roncam de lado.
Oh, triste e terna biografia de um caderno em eterna iniciação. Este Inverno outona-me as folhas de uma alma entreaberta, ideias vazantes. Vem, vem com a tua projecção, lembrança artificial que me sugas dimensão. Abre as tuas páginas para que eu me imiscua linhas e ressurja, às travessias de cá para lá pautadas, contornados ócios, palavras quadriculadas. Não, mas não me vires com as tuas páginas de arrastada ventania. Não me vivas já; quero primeiro trautear-te de mim. Em calor ou insistência...
Adoração platónica à veia tectónica dos nossos solos, em físicas musicais. Fúria corpórea de uma alma sangrenta. Todos ouvem o conclusivo provérbio qualquer na tradição do oratório, embuídos de grandificação e da disciplina da grandificação, em seguranças. Arranca-me deste sofá, garra jovial, enquanto te esboço. Visão que me perfumas as narinas de alma.
A minha mensagem é uma de repulsa...
as notas da aragem... corrente de ar avulsa...
o trigo da criação, a metade que faltava
ao intelectual pão que o seu pôdre ostentava.
Vamos todos rimar e ecoar estéticas. Por um megafone qualquer, admirar estéticas. Podar arbustos no jardim citadino. Pode ser de aversão, pode ser de civilização, desde que à tesourada. É o mote dos teóricos da crítica.
Oh, mas eu enclausuro-os no exterior de um banco de jardim sem jardim. Sejamos, pois, os nossos bancos de jardim, e deitemo-nos neles com dores por todas as costas orgulhosas. Sejamos palco e bancada do espetáculo de emoções em saco de compras sem saco. Sejamos o incenso, pois então, o fumegar, o saboroso mastigar da matéria em combustão, e o aroma que fica.
Isto não é nada divertido... Nada divertido!... Ah, devo ir à neve, de encontro a avalanches, ah! Ah, as avalanches! Revolvam-me enquanto derreto. Rebordo-me por interiores afora em decorações montanha abaixo, e chego a um cume de aspiração vertiginosa, atentados à escala do sublime. Ergo alto o punhal impreciso e esfaqueio os revisitados e ultrapassados simbolismos vagamente pessoais e misteriosamente em português. Entro na loja e peço o produto abstracto, indefinido na medida de um vendedor de peito rasgado. Oh, pandemia dos sentidos, minimal compressa de genes intencionais quase mutantes.
Neste céu verde de tão folhas, choro insolente, gota de nuvem por arrancar.
Há dias em que, a fazer coisas que não nós, somos o discípulo que ouve o velho sábio a pensar sob a forma de um rasto de avião pouco cá. Depois, velho cruzamento de antevisões, cai dos céus a mentira feita pardal. Oh, previsão de extremismos ligeiramente egoísta, que és, afinal, em brevidade de exaltação. Oh, ser eu não este bucolismo fútil de paisagens existenciais.
Escorrego véus de realidade, inexisto a toda a força. Sou as peles de camurça que não visto. Mas que esteja na declamação o ganho, economias imateriais em ascensão, zénites. Escadas intermitentes a subir de luz rolante, iluminando-me através das cidades. Estilhaços de tsunami por um mar mucoso a pouca maré. Roupa que seca num estendal de partilha.
O meu único Deus é o livre arbítrio. E mesmo esse, só nos intervalos do Destino.
Choro dissabores com o meu riso. Choro dissabores e enterneço-me deles. Fito a passadeira do Nunca e atravesso-me tinta, nela branca. É esta a minha fronteira. Procuro a mãe da posição nos vultos frontais. A comunicação são os motores que roncam de lado.
Oh, triste e terna biografia de um caderno em eterna iniciação. Este Inverno outona-me as folhas de uma alma entreaberta, ideias vazantes. Vem, vem com a tua projecção, lembrança artificial que me sugas dimensão. Abre as tuas páginas para que eu me imiscua linhas e ressurja, às travessias de cá para lá pautadas, contornados ócios, palavras quadriculadas. Não, mas não me vires com as tuas páginas de arrastada ventania. Não me vivas já; quero primeiro trautear-te de mim. Em calor ou insistência...
Adoração platónica à veia tectónica dos nossos solos, em físicas musicais. Fúria corpórea de uma alma sangrenta. Todos ouvem o conclusivo provérbio qualquer na tradição do oratório, embuídos de grandificação e da disciplina da grandificação, em seguranças. Arranca-me deste sofá, garra jovial, enquanto te esboço. Visão que me perfumas as narinas de alma.
A minha mensagem é uma de repulsa...
as notas da aragem... corrente de ar avulsa...
o trigo da criação, a metade que faltava
ao intelectual pão que o seu pôdre ostentava.
Vamos todos rimar e ecoar estéticas. Por um megafone qualquer, admirar estéticas. Podar arbustos no jardim citadino. Pode ser de aversão, pode ser de civilização, desde que à tesourada. É o mote dos teóricos da crítica.
Oh, mas eu enclausuro-os no exterior de um banco de jardim sem jardim. Sejamos, pois, os nossos bancos de jardim, e deitemo-nos neles com dores por todas as costas orgulhosas. Sejamos palco e bancada do espetáculo de emoções em saco de compras sem saco. Sejamos o incenso, pois então, o fumegar, o saboroso mastigar da matéria em combustão, e o aroma que fica.
Isto não é nada divertido... Nada divertido!... Ah, devo ir à neve, de encontro a avalanches, ah! Ah, as avalanches! Revolvam-me enquanto derreto. Rebordo-me por interiores afora em decorações montanha abaixo, e chego a um cume de aspiração vertiginosa, atentados à escala do sublime. Ergo alto o punhal impreciso e esfaqueio os revisitados e ultrapassados simbolismos vagamente pessoais e misteriosamente em português. Entro na loja e peço o produto abstracto, indefinido na medida de um vendedor de peito rasgado. Oh, pandemia dos sentidos, minimal compressa de genes intencionais quase mutantes.
Neste céu verde de tão folhas, choro insolente, gota de nuvem por arrancar.
Há dias em que, a fazer coisas que não nós, somos o discípulo que ouve o velho sábio a pensar sob a forma de um rasto de avião pouco cá. Depois, velho cruzamento de antevisões, cai dos céus a mentira feita pardal. Oh, previsão de extremismos ligeiramente egoísta, que és, afinal, em brevidade de exaltação. Oh, ser eu não este bucolismo fútil de paisagens existenciais.
Escorrego véus de realidade, inexisto a toda a força. Sou as peles de camurça que não visto. Mas que esteja na declamação o ganho, economias imateriais em ascensão, zénites. Escadas intermitentes a subir de luz rolante, iluminando-me através das cidades. Estilhaços de tsunami por um mar mucoso a pouca maré. Roupa que seca num estendal de partilha.
O meu único Deus é o livre arbítrio. E mesmo esse, só nos intervalos do Destino.
terça-feira, fevereiro 07, 2006
Prós estudantes de Cronologia: feito dia 2 de Janeiro (partes 1, 2, 3, 6), dia 2 de Fevereiro (parte 5) e dias 7 e 30 de Janeiro, 2 e 7 de Fevereiro (parte 4).
Cruzeiro humano
I
Repentino vento
Por Deus - agora vejo
(e como!) a realidade
obscura desta sociedade
de disfarce e de desejo
permanentes. Não pestanejo,
tal a límpida claridade
com que esta dorida atrocidade
seu impacto emana. Velejo
nestes mares revoltos
de multidão desprovida
de compreensão, soltos
das amarras os nós.
Mais valia reprimida,
esta visão... Parto veloz.
II
Mar de gente
Lá longe, no alto mar, uma miríade
de gente nada em turbilhão. Que susto!
Querem chegar à costa, a todo o custo.
As braçadas que dão são uma tríade
de esforço, de vontade e de corrente.
Isto num rio provocaria uma enchente.
Uns elegantes, outros mais rebeldes
na forma como o braço encontra a água,
e mais diversidade ainda nos debaldes
percursos à marítima superfície.
Como ninguém sabe a direcção, nadam à toa.
Uns quantos apostam numa, até à calvície;
outros vão mudando, com medo do fracasso;
outros nadam frenéticos, aos círculos doentios;
outros ainda deixam-se boiar, de cansaço.
Há ainda os que, nos barcos em madeira,
vão ao sabor do vento, em lentos rodopios,
pois lhes parece indiferente a maneira
como se avança - sendo uma questão de sorte,
que diferença fará ir para Sul ou para Norte?
O dilema é só o de esbracejar mais ou menos.
Assim, recostam-se nas barcas solitárias
sem fé nem alento, autênticos párias
dos que lhes roçam o casco, sejam hostis ou amenos.
III
Mergulho primeiro
Posto isto, mergulhei,
aventureiro,
qual cinzas sopradas
de um cinzeiro.
Lá, depressa encontrei
o balanço
das ondas azuladas
aquém do nevoeiro.
Lá encontrei também
a inquietação,
não soube nadar bem,
fui um inapto ganso.
Não pude mais regressar,
ditou o vento.
O barco velejou-se, num afastar.
O vento soprou-me um não.
Fiquei a sós com o mar,
e as pessoas
passaram, sem dar por mim, a nadar.
Dei por mim em isolamento.
IV
Gente do mar
Boiei em desfazamento,
chapinhando à tona da água,
até me virem arrancar a rima.
Braços, corpos, forças às dezenas
tomaram-me por obstáculo fútil
e o verso fez-se supérfluo,
subaquático e adjacente.
Esbracejos, dores e soluços
sucederam-se em sobrevivência.
Fora de um meio ambiente,
adensei-me selva de estragos
e emoções profundas. Turbulentas,
as energias camufladas, em impacto,
esvaíam-se sem braço pela correnteza.
Em encontros incessantes de alto-mar,
o meu corpo atordoado pelo marasmo
servia para propulsionar os peregrinos
em multidão e fervor de natação.
Muitos, possantes e sedentos
de avanço no vasto mar atlético.
Grande vaga humana em pleno rebentamento.
Outros, em ligeira emersão,
deixavam-se arrastar sem grande esforço,
condicionados pelo mundo que eram todos,
abstinentes de medir mares e vizinhos,
sujeitando-se a nadar em vaga prancha
de um surf social e cativante
sempre que em comunhão nela se erguiam.
Afastei-me de uns a nado convulso,
de outros dei continuidade ao afastar-me.
Seguiam todos numa migração sem rumo
que eu me dediquei em esforço a evitar.
Reflexos de um pouco confortável oceano.
Estremeci o frio, espaireci a pausa,
e de noite brilhei a lua calada.
Esporádicos encontros doridos
continuaram mar adentro, passageiros,
transportando consigo a escotilha
de ver o baço por um navio inútil.
A pouco leme, as órbitas sucederam-se
em reconhecimento astral diurno
feito de guinadas pouco mundanas.
De dia, a troços, fui inventando margens.
Aos poucos, o chapinhar transformou-se
e aprendeu o desvio a meia-distância.
Também a visão se acostumou
e reconheceu, entre membros ocupados,
contornos distintos, por vezes semelhantes,
que não os de peixes brutos de cardume.
Combatente sem escudo, remédio ou antídoto,
intoxiquei-me mortiço pelas águas,
em viagem, aproximando-me dos postos
de desafios escondidos e tendo por bagagem
a pronta ausência ao mais pequeno salpico
da água de outrém, deixando-me para trás
em longas quilometragens de fôlego a recuperar.
Nesse passeio contornado, inundei-me
de compreensão às camadas do que via,
ao que me engasguei de pulmão seco,
com a trémula consciência do meu ser
face à segura consistência dos compostos
líquidos, alheios e vizinhos.
Passei a desviar-me do meu próprio nado.
Contudo, tentei que não se afogasse a luta.
Motivado por estar vivo, fui boiando,
por vezes nadando. Porém não mais a direcção
se me avizinhou em companhia,
e passaram-se várias batalhas inconclusas
em que não fiz parte de um sentido que durasse.
Assim me dei às ondas - não me dando à gente do mar.
V
Solitário mar
ou
Rising de(e)cay
Suave e terna voz invísivel
que me embala insuficiente
de um mastro. Pouco plausível,
o navio sem quilha, assente
no mar que se aterra poluição
no sorvido naufrágio da graça
que brinca vaga, na imaginação.
Navego em carícia pela massa
disforme deste cruzeiro maciço,
apalpando a dor terna e suave
da súplica, implícito e castiço
sentimento de maré em enclave.
Todo este mar de imprecisa posição,
sem mapas, é a inexistente praça
de uma cidade à beira-mar sem razão,
fundada e afundada em desgraça.
E os mapas que não há em incrível
redemoinho desenham um descrente
caminho no topo de um pouco crível
mastro. Trepo, decadência ascendente.
VI
Mergulho último
Senti crescer uma forte caimbrã.
Senti-me fundo num mar em câmara lenta.
Afoguei-me lento num mar sem fundo.
Doí-me. Chamei vão pela mamã.
Cruzeiro humano
I
Repentino vento
Por Deus - agora vejo
(e como!) a realidade
obscura desta sociedade
de disfarce e de desejo
permanentes. Não pestanejo,
tal a límpida claridade
com que esta dorida atrocidade
seu impacto emana. Velejo
nestes mares revoltos
de multidão desprovida
de compreensão, soltos
das amarras os nós.
Mais valia reprimida,
esta visão... Parto veloz.
II
Mar de gente
Lá longe, no alto mar, uma miríade
de gente nada em turbilhão. Que susto!
Querem chegar à costa, a todo o custo.
As braçadas que dão são uma tríade
de esforço, de vontade e de corrente.
Isto num rio provocaria uma enchente.
Uns elegantes, outros mais rebeldes
na forma como o braço encontra a água,
e mais diversidade ainda nos debaldes
percursos à marítima superfície.
Como ninguém sabe a direcção, nadam à toa.
Uns quantos apostam numa, até à calvície;
outros vão mudando, com medo do fracasso;
outros nadam frenéticos, aos círculos doentios;
outros ainda deixam-se boiar, de cansaço.
Há ainda os que, nos barcos em madeira,
vão ao sabor do vento, em lentos rodopios,
pois lhes parece indiferente a maneira
como se avança - sendo uma questão de sorte,
que diferença fará ir para Sul ou para Norte?
O dilema é só o de esbracejar mais ou menos.
Assim, recostam-se nas barcas solitárias
sem fé nem alento, autênticos párias
dos que lhes roçam o casco, sejam hostis ou amenos.
III
Mergulho primeiro
Posto isto, mergulhei,
aventureiro,
qual cinzas sopradas
de um cinzeiro.
Lá, depressa encontrei
o balanço
das ondas azuladas
aquém do nevoeiro.
Lá encontrei também
a inquietação,
não soube nadar bem,
fui um inapto ganso.
Não pude mais regressar,
ditou o vento.
O barco velejou-se, num afastar.
O vento soprou-me um não.
Fiquei a sós com o mar,
e as pessoas
passaram, sem dar por mim, a nadar.
Dei por mim em isolamento.
IV
Gente do mar
Boiei em desfazamento,
chapinhando à tona da água,
até me virem arrancar a rima.
Braços, corpos, forças às dezenas
tomaram-me por obstáculo fútil
e o verso fez-se supérfluo,
subaquático e adjacente.
Esbracejos, dores e soluços
sucederam-se em sobrevivência.
Fora de um meio ambiente,
adensei-me selva de estragos
e emoções profundas. Turbulentas,
as energias camufladas, em impacto,
esvaíam-se sem braço pela correnteza.
Em encontros incessantes de alto-mar,
o meu corpo atordoado pelo marasmo
servia para propulsionar os peregrinos
em multidão e fervor de natação.
Muitos, possantes e sedentos
de avanço no vasto mar atlético.
Grande vaga humana em pleno rebentamento.
Outros, em ligeira emersão,
deixavam-se arrastar sem grande esforço,
condicionados pelo mundo que eram todos,
abstinentes de medir mares e vizinhos,
sujeitando-se a nadar em vaga prancha
de um surf social e cativante
sempre que em comunhão nela se erguiam.
Afastei-me de uns a nado convulso,
de outros dei continuidade ao afastar-me.
Seguiam todos numa migração sem rumo
que eu me dediquei em esforço a evitar.
Reflexos de um pouco confortável oceano.
Estremeci o frio, espaireci a pausa,
e de noite brilhei a lua calada.
Esporádicos encontros doridos
continuaram mar adentro, passageiros,
transportando consigo a escotilha
de ver o baço por um navio inútil.
A pouco leme, as órbitas sucederam-se
em reconhecimento astral diurno
feito de guinadas pouco mundanas.
De dia, a troços, fui inventando margens.
Aos poucos, o chapinhar transformou-se
e aprendeu o desvio a meia-distância.
Também a visão se acostumou
e reconheceu, entre membros ocupados,
contornos distintos, por vezes semelhantes,
que não os de peixes brutos de cardume.
Combatente sem escudo, remédio ou antídoto,
intoxiquei-me mortiço pelas águas,
em viagem, aproximando-me dos postos
de desafios escondidos e tendo por bagagem
a pronta ausência ao mais pequeno salpico
da água de outrém, deixando-me para trás
em longas quilometragens de fôlego a recuperar.
Nesse passeio contornado, inundei-me
de compreensão às camadas do que via,
ao que me engasguei de pulmão seco,
com a trémula consciência do meu ser
face à segura consistência dos compostos
líquidos, alheios e vizinhos.
Passei a desviar-me do meu próprio nado.
Contudo, tentei que não se afogasse a luta.
Motivado por estar vivo, fui boiando,
por vezes nadando. Porém não mais a direcção
se me avizinhou em companhia,
e passaram-se várias batalhas inconclusas
em que não fiz parte de um sentido que durasse.
Assim me dei às ondas - não me dando à gente do mar.
V
Solitário mar
ou
Rising de(e)cay
Suave e terna voz invísivel
que me embala insuficiente
de um mastro. Pouco plausível,
o navio sem quilha, assente
no mar que se aterra poluição
no sorvido naufrágio da graça
que brinca vaga, na imaginação.
Navego em carícia pela massa
disforme deste cruzeiro maciço,
apalpando a dor terna e suave
da súplica, implícito e castiço
sentimento de maré em enclave.
Todo este mar de imprecisa posição,
sem mapas, é a inexistente praça
de uma cidade à beira-mar sem razão,
fundada e afundada em desgraça.
E os mapas que não há em incrível
redemoinho desenham um descrente
caminho no topo de um pouco crível
mastro. Trepo, decadência ascendente.
VI
Mergulho último
Senti crescer uma forte caimbrã.
Senti-me fundo num mar em câmara lenta.
Afoguei-me lento num mar sem fundo.
Doí-me. Chamei vão pela mamã.
domingo, fevereiro 05, 2006
Post-brinquedo feito de estilhaço.
O desnorte... A recapitulação. No ontem de hoje, a paisagem surreal de um autocarro.
Céus! Sê solene, solene como o vento. Não, mas embirra, embirra-te. Vá...
És a desgraça. Justaposto, és o fragmento de quem estava ali.
Queres ser cola, coitado, queres ser cola. Esfrega, esfrega-te bem. E cai ao chão e parte-te sem ninguém ver.
Absorve o elixir imperceptível. Impossível. Não te bebas, não te sorvas, não faças barulhinhos de palhinha no fim do molhado.
Mas quem? Mas quem??? Quem ?! e onde ?! anda ?! aos ésses ?! de estrada pouca...
Adjectivos, tempo e ciclo de sanidade. Um quase-batido de gelado confundido.
Venha o próximo...
Ensaios de apelo em feminino aleatório:
Catarina! Catarina, vem cá, vem ao cá de amígdala esguia. Surge do silêncio e silencia a dor em cantos tão suaves quanto os de dois fantasmas agradáveis recíprocamente torneados. A azáfama, credo, a azáfama, parafernália, a eliminação sorrateira de divindades, tudo isto é pó. Vem Catarina, e sopra embora o pó.
Cátia, anda até aqui. Balbucia-me ao ouvido a inveja, a mal contida. Chora a lágrima do impasse, e consola-me em desabafo o ombro amigo. Sê redescoberta e faz aventura da tímida sorridente.
etc.
O desnorte... A recapitulação. No ontem de hoje, a paisagem surreal de um autocarro.
Céus! Sê solene, solene como o vento. Não, mas embirra, embirra-te. Vá...
És a desgraça. Justaposto, és o fragmento de quem estava ali.
Queres ser cola, coitado, queres ser cola. Esfrega, esfrega-te bem. E cai ao chão e parte-te sem ninguém ver.
Absorve o elixir imperceptível. Impossível. Não te bebas, não te sorvas, não faças barulhinhos de palhinha no fim do molhado.
Mas quem? Mas quem??? Quem ?! e onde ?! anda ?! aos ésses ?! de estrada pouca...
Adjectivos, tempo e ciclo de sanidade. Um quase-batido de gelado confundido.
Venha o próximo...
Ensaios de apelo em feminino aleatório:
Catarina! Catarina, vem cá, vem ao cá de amígdala esguia. Surge do silêncio e silencia a dor em cantos tão suaves quanto os de dois fantasmas agradáveis recíprocamente torneados. A azáfama, credo, a azáfama, parafernália, a eliminação sorrateira de divindades, tudo isto é pó. Vem Catarina, e sopra embora o pó.
Cátia, anda até aqui. Balbucia-me ao ouvido a inveja, a mal contida. Chora a lágrima do impasse, e consola-me em desabafo o ombro amigo. Sê redescoberta e faz aventura da tímida sorridente.
etc.
sábado, fevereiro 04, 2006
Já de chave sonolenta, finda a arte de extroversão oculta, encerro não um mistério destacado, não um lânguido do ininterrupto, não um retorcido limiar de tédios de um lado e uma semi-automática luta do outro; apenas a citação visual da memória de um mês manuscrito, em frase descritiva e plena o suficiente.
Pus-vos aqui, enquanto a tempestade real não se promete, mais uns outrora rascunhos, bastantes. Para o aventureiro que decifra e absorve, interessado em se dar ao prévio, aí tem a recompensa em estirpe passada. Para os outros, continuem a aparecer que há-de também aparecer aqui mais qualquer coisa... Para o predominante Ninguém, muito desprezo para si também.
Pus-vos aqui, enquanto a tempestade real não se promete, mais uns outrora rascunhos, bastantes. Para o aventureiro que decifra e absorve, interessado em se dar ao prévio, aí tem a recompensa em estirpe passada. Para os outros, continuem a aparecer que há-de também aparecer aqui mais qualquer coisa... Para o predominante Ninguém, muito desprezo para si também.
terça-feira, janeiro 31, 2006
Explosões... furto-me de mim,
canibal, quase, qual Adolfo,
cá estou a pingar as bermudas
de um hoje nú, em actos
completamente irreflectidos.
Daqui a nada estarei já saturado
de não ter já a concentração
para mensagens que hoje
não tive. Dei-me a imediatizações
e às suas imediações.
Procurei ser o acaso de onde algo
surge sem sentido, para me ir lendo
e continuando sem sentido.
Para quê? Para nada. Como consequência
natural e plena de ter hesitado,
disparei os cartuchos que se esvaziaram,
não de balas propriamente,
mas de tiros.
Conceito interessante,
mas, enfim, pouco relaxante...
Digo eu. Quer dizer...
é mais sei lá que outra coisa.
Rolei a cabeça para ali para algures
para o costume para o para.
Baila o baile bailarino e repete,
repete, repete, repete
disforme, sem dar por isso,
cláusula do habitual, o costume,
para para para para.
Contínuo, chego ao fim do post do costume.
Continuo em contínuo e continuo
em comboio sem passageiros nem carruagem,
nem céu, nem fumo, nem engrenagem,
nem nada com rodas.
No paradigma do paradoxo, da comparação
a um conceito frouxo
e redutor, esmigalhado em relação
ao conceito original, a ambiguidade
do costume, de sempre o paradigma,
sempre o sempre, e sempre a eternidade
de uma pontualidade, e sempre o fim
do pavio assinalado,
o contínuo.
Mas para quê... Que importa.
As alternativas, não, nem vamos voltar lá.
Sei que não as quero, mesmo que as procure,
e se o refiro, é porque quero alternativas.
Ora essa... Já chega em parte.
Sem querer que isto soe, sem me querer soar,
procuro-me assoar destas frases engripadas
na justaposição do costume.
Novos costumes, novos tédios, emergem decerto
ao incerto longe aqui à frente
e faço-me mais, mais e mais um eu
com novas realidades a mal ser eu,
em bermas angulares de inclinação regressiva
e fugitiva ao mesmo tempo.
Pressiono-me e descomprimo-me,
em jogos duais sem unidade
numa recuperação de línguas escondidas
por baixo do lodo sem saliva
e salivo-as com micróbios
e doençazinhas saudáveis doentias.
Tanto faz, reformulo, recompacto,
não páro - fiz um pacto
com o contínuo das erupções assoladoras
de cidades fantasma de disposição
das estradas e dos espectros.
Agressivo rompante de contrários suaves,
enleados uns dos outros em azia
interpretativa, e alguma estrutura completamente
imaginária num céu estranhíssimo, de cores
de fora do arco-íris, de ruídos para lá dos ruídos,
até mesmo daqueles que só os cães ouvem,
e no entanto audíveis e visíveis,
a olhos que palpitam e sabem fitar
transversais e diagonais
em tabuleiros redondos de xadrez redondo
ou de um jogo assimétrico,
ou qualquer recombinação do conceito um
com o conceito dois, mas em sintonia
com um sentido que não existe para lá
de um céu tão vago quão imberbe,
pois está longe do mundo dos pelos
ou das árvores ou dos cotovelos,
é completamente desprovido de identidade
que caiba numa cartografia artística,
psicológica ou autista.
É solene só passado muitos minutos,
e só num durante imesurável
sem tempo para a velocidade da luz
nos trazer brilho do céu,
mas com tempo para a adoração
perpassar em vibrações do tecido
do espaço em que somos e em que também é
esse céu que não se percebe
nem se atribui a nada, a nada, a mesmo nada...
Está ali, tão sem distância nem proximidade
nem união, oposição ou amálgama de sistemas métricos...
Está ali, e ali vai ficar,
infiltrado num sempre dos extremos pontuais do tempo
milimétrico repartido.
E eu, que não percebi muito bem
sobre o que é que escrevi,
apesar de ter percebido
que estava a escrever sobre alguma coisa,
mas que me vou branquear qual nuvem
para outras maneiras,
mais ou menos.
canibal, quase, qual Adolfo,
cá estou a pingar as bermudas
de um hoje nú, em actos
completamente irreflectidos.
Daqui a nada estarei já saturado
de não ter já a concentração
para mensagens que hoje
não tive. Dei-me a imediatizações
e às suas imediações.
Procurei ser o acaso de onde algo
surge sem sentido, para me ir lendo
e continuando sem sentido.
Para quê? Para nada. Como consequência
natural e plena de ter hesitado,
disparei os cartuchos que se esvaziaram,
não de balas propriamente,
mas de tiros.
Conceito interessante,
mas, enfim, pouco relaxante...
Digo eu. Quer dizer...
é mais sei lá que outra coisa.
Rolei a cabeça para ali para algures
para o costume para o para.
Baila o baile bailarino e repete,
repete, repete, repete
disforme, sem dar por isso,
cláusula do habitual, o costume,
para para para para.
Contínuo, chego ao fim do post do costume.
Continuo em contínuo e continuo
em comboio sem passageiros nem carruagem,
nem céu, nem fumo, nem engrenagem,
nem nada com rodas.
No paradigma do paradoxo, da comparação
a um conceito frouxo
e redutor, esmigalhado em relação
ao conceito original, a ambiguidade
do costume, de sempre o paradigma,
sempre o sempre, e sempre a eternidade
de uma pontualidade, e sempre o fim
do pavio assinalado,
o contínuo.
Mas para quê... Que importa.
As alternativas, não, nem vamos voltar lá.
Sei que não as quero, mesmo que as procure,
e se o refiro, é porque quero alternativas.
Ora essa... Já chega em parte.
Sem querer que isto soe, sem me querer soar,
procuro-me assoar destas frases engripadas
na justaposição do costume.
Novos costumes, novos tédios, emergem decerto
ao incerto longe aqui à frente
e faço-me mais, mais e mais um eu
com novas realidades a mal ser eu,
em bermas angulares de inclinação regressiva
e fugitiva ao mesmo tempo.
Pressiono-me e descomprimo-me,
em jogos duais sem unidade
numa recuperação de línguas escondidas
por baixo do lodo sem saliva
e salivo-as com micróbios
e doençazinhas saudáveis doentias.
Tanto faz, reformulo, recompacto,
não páro - fiz um pacto
com o contínuo das erupções assoladoras
de cidades fantasma de disposição
das estradas e dos espectros.
Agressivo rompante de contrários suaves,
enleados uns dos outros em azia
interpretativa, e alguma estrutura completamente
imaginária num céu estranhíssimo, de cores
de fora do arco-íris, de ruídos para lá dos ruídos,
até mesmo daqueles que só os cães ouvem,
e no entanto audíveis e visíveis,
a olhos que palpitam e sabem fitar
transversais e diagonais
em tabuleiros redondos de xadrez redondo
ou de um jogo assimétrico,
ou qualquer recombinação do conceito um
com o conceito dois, mas em sintonia
com um sentido que não existe para lá
de um céu tão vago quão imberbe,
pois está longe do mundo dos pelos
ou das árvores ou dos cotovelos,
é completamente desprovido de identidade
que caiba numa cartografia artística,
psicológica ou autista.
É solene só passado muitos minutos,
e só num durante imesurável
sem tempo para a velocidade da luz
nos trazer brilho do céu,
mas com tempo para a adoração
perpassar em vibrações do tecido
do espaço em que somos e em que também é
esse céu que não se percebe
nem se atribui a nada, a nada, a mesmo nada...
Está ali, tão sem distância nem proximidade
nem união, oposição ou amálgama de sistemas métricos...
Está ali, e ali vai ficar,
infiltrado num sempre dos extremos pontuais do tempo
milimétrico repartido.
E eu, que não percebi muito bem
sobre o que é que escrevi,
apesar de ter percebido
que estava a escrever sobre alguma coisa,
mas que me vou branquear qual nuvem
para outras maneiras,
mais ou menos.
O sopro frio do vento moído
é o movimento sem gente, consentido,
de sabedoria e desgraça ao mesmo tempo
que me invade numa literatura sem tempo.
Que dor, que cólicas, que tristeza.
Que dor, que cólicas, que tristeza.
Que dor, que cólicas, que tristeza.
Esvaio-me aos pingos para aqui
e espero por ti
que em mim não és
nem poderias ser, sem me conhecer
ou sequer existir.
Raios, diabo, caramba.
Quem sou? Este ar que se desaba...
é o vento gélido dum moinho soprado
até mim em vontades estagnado.
Círculos, piruetas e uma atmosfera
absurda e asceta de sofrida
sem motivo, de quê, ou ilusão.
Regurgito palavras e numa esfera
sem gente, consentida,
invado-as repentino sem motivo vão.
E tu, onde estás?
Que é de ti......
Escusas de te ir embora,
lá porque não existes...
Onde estás? MAS ONDE ESTÁS??????
é o movimento sem gente, consentido,
de sabedoria e desgraça ao mesmo tempo
que me invade numa literatura sem tempo.
Que dor, que cólicas, que tristeza.
Que dor, que cólicas, que tristeza.
Que dor, que cólicas, que tristeza.
Esvaio-me aos pingos para aqui
e espero por ti
que em mim não és
nem poderias ser, sem me conhecer
ou sequer existir.
Raios, diabo, caramba.
Quem sou? Este ar que se desaba...
é o vento gélido dum moinho soprado
até mim em vontades estagnado.
Círculos, piruetas e uma atmosfera
absurda e asceta de sofrida
sem motivo, de quê, ou ilusão.
Regurgito palavras e numa esfera
sem gente, consentida,
invado-as repentino sem motivo vão.
E tu, onde estás?
Que é de ti......
Escusas de te ir embora,
lá porque não existes...
Onde estás? MAS ONDE ESTÁS??????
domingo, janeiro 29, 2006
Berma azeda
Tudo o que é bom sabe a morte,
todo o possível é nulo
quando não se tem suporte,
quando se está num casulo.
Não sei mais o que vos diga,
não vos quero dizer mais,
quero contrariar a fadiga
em mil estrebuchos fatais.
Quero à berma de sofrer
cambalear sem equilíbrio
para tentar esquecer
que fingir não é estar ébrio.
Tudo quer ser sorte,
mas quando se morde,
o sabor foi para Norte.
O meu espelho é um fiorde.
Tudo o que é bom sabe a morte,
todo o possível é nulo
quando não se tem suporte,
quando se está num casulo.
Não sei mais o que vos diga,
não vos quero dizer mais,
quero contrariar a fadiga
em mil estrebuchos fatais.
Quero à berma de sofrer
cambalear sem equilíbrio
para tentar esquecer
que fingir não é estar ébrio.
Tudo quer ser sorte,
mas quando se morde,
o sabor foi para Norte.
O meu espelho é um fiorde.
terça-feira, janeiro 24, 2006
Dois em um
I
Dualidade
E agarro-te as crinas de amor equídeo.
E solto-te o dorso de vontade curva.
E abraço-te o galope de rédea turva.
E sorrio a tua boca de arfar canídeo.
E entoas-me os olhos em embalo cantante.
E diluis-me o cérebro em carícia melódica.
E afagas-me a dor em torrente espasmódica.
E sorris o meu ouvido em ardor falante.
E persigo-te a coxa pela viela acima.
E encurralo-te a língua no fundo do beco.
E esgano-te os seios no crime que disseco.
E espio o teu sufoco pelo ventre que me mima.
E arrependes-me o amargo em rios de beijos.
E invejas-me a doçura em aperto embebido.
E estonteias-me o sexo em prazer derretido.
E ecoas o meu clímax em catarata de desejos.
II
Unicidade
Velejamos juntos nos altos mares
dos nossos líquidos corporais,
despertando graças aos seus sais,
desmaiados pelo ofegante dos ares.
Dormimos por ignorar tudo o mais
que não os sonhos puros. Os azares,
as desavenças vão para outros lares;
ficamos unidos por cordões umbilicais.
Acordamos por deixarmos para trás,
sob os pretextos dos desejos carnais,
os insaciáveis meandros sociais
que nos consomem. Em paixão assaz
os desprezamos. A sós, somos totais.
Com pudor, renegamos esse capataz;
fodemos contra a inadequação incapaz.
Fundimo-nos num só. Dois é demais.
III
Omni-falsidade
De repente, qual óvulo abortado,
cessou a união,
e de um pulo foi para seu lado
cada um, em aversão.
É que lemos nas entrelinhas
da Natureza consumada
que estava cheia de espinhas.
A sociedade odiada
entranhou-se em nós, e ao receber
a sua mensagem subliminar,
digerimos que não se pode romper
um tão implantado invólucro de azar.
Ao tentar transcender o comunicativo,
o impulso que nos movia
já não era o banal ímpeto lascivo;
era o de ser quem se deveria,
segundo ela; obedecermos aos seus caprichos, sua métrica.
segunda-feira, janeiro 23, 2006
E quando a inspiração são quadros clássicos de figuras sem moldura num âmbito exterior, revivem-se infâncias emocionais e memórias às migalhas, em esperança de destroçar o historial afastado e queimar o rastilho do decorrer faminto. Em tom político, solicito intervenções, em agnóstica adequação à circunstância, diminutamente revitalizada num corpo imaginário. O cérebro circunscreve-se de conflituosos cenários de reposição de uma estátua indefinida de corroída por ácidos de realidade. Pelo meio, está-se ainda à espera de desencontros antigos, espera-se pelo concerto final de Smashing Pumpkins a que não se foi, espera-se pelo concerto final de Faith No More a que não se foi, ou até pelo concerto final de Morphine, a que se foi em insuficiência ignorante. A filosofia do derradeiro dá lugar a uma derradeira asfixia de filosofias, num abraço preemptório ao sufoco invísivel, já expirado. A morte esquecida ao canto da tela, em moribundos quadros à vida. O fardo expressivo engolido por uma colecção de instantes e impulsos afixados num muro confuso e de Berlim. Separa-se o sonho do separatismo, e salta-se para uma face pouco gravítica desse rosto da evolução, e aguarda-se que a sua evacuação deixe de ser um quase. Artifícios da arte, única salvação possível, conquanto, enfim... impossível. Enfim...
sábado, janeiro 21, 2006
Entretanto, e distendendo um pouco o contínuo do tempo, em afastamento, revejo-me menos sóbrio de vontades, menos aglutinado de globalização espiritual. Refiro-me às últimas poucas semanas, em que larguei o corrimão do sítio recente e deslizei um pouco mais por ziguezagues da vontade e da palavra em verbalização hipotética, o anunciamento futurista da necessidade. Reidentifiquei objectos, qual detective num jardim que sua a crime ao sol. Reidentifiquei imediatizações, arrastos de mentalidade e incertezas pendentes subjugadas a uma voz de zaragata inaudível em aspiração a fraterna. Hesitei também, o que me leva a acautelar a prenúncia de desenfreada descida de ski em gélido íngreme. Aqui, uma prova concreta, no misto mistificado de pertinência com sensação de pertinência. Mas, claro, todo este crescente agitar evolucionista é mero sinónimo do mais vago ondular que o precede, em semânticas de materialização.
Uma pessoa mínima cresce de interrogação.
O que quer saber ao certo? Incertezas?
Quer saber memórias esmagadoras que a tragam de volta, na sua dimensão original, imperturbável e extinta.
Quer luzir e reluzir na noite iluminada de escuridão.
Quer isso tudo. É velho e sabido.
Velha é também a inconclusividade para lá do primeiro passo.
Regenere-se pois, quiméricamente, a idade perdida, em passos físicos e reais.
Uma calçada torta, e o andamento de uma leve palavra, e o nervo espreitante agachado.
A ressalva interna do vazio dissipador, e o pensamento dividido entre o que quer que fosse e vagos impulsos, quais guilhotinas contraídas.
Há aqui uma bifurcação: ora se subverte a mentira, ora se subverte o natural.
Em geral, prossegue-se, de pensamento controlado, abstraído e são.
Continua-se, e os pilares assentam, balanceando de moles.
Dão-se umas trepadelas verbais e gestuais.
Algures na caminhada, alguém que não existe os chama de moles.
Ignora-se ainda.
Ainda na caminhada, alguém que existe reage de certa e determinada maneira.
Antes da bifurcação, é dada continuidade à pureza até um certo ponto, por firmar.
Tem-se o cuidado de não sentir a reacção antes de a observar, em circunstâncias que não sejam especialmente agrestes, ou especialmente preconcebidas de um fracasso inconsciente.
É nessa altura que há o ricochete de multiplicidade.
Quando do esboço e da construção sobressai, em angariamento obreiro, um espaçamento extra e arriscado.
De súbito, em três tempos, a continuidade transforma-se num sobressalto invísivel, a construção transforma-se em continuidade exteriorizada de vigas rectílineas e o momento é um e acaba.
Fundada em hipótese, a pessoa perpassa, estranhando por vezes, ou, embalada pelos seus anos divertidos, repisa os sonhos em resposta prematura, que por isso não o é, ou, embalada pelos seus anos aborrecidos, segue em frente após denotar (sem denotar) um enfim normalizado, como o de quem remete um envelope para a caixa postal da falta de expectativa por razões de nexo.
Fundida em hipótese, a lâmpada imaginativa renega o escuro e mantém os fusíveis ateados, após o curto circuito.
Em caso de gravidade com impacto, deixa-se arrefecer o exaustor primeiro.
Redesperta-se para outro prosseguir, ora sonolento, ora de intermitente, ora de luz possante de certezas por instantes.
De regresso ao fim de página, vindo do meio da rua, o homenzinho encontrou as respostas às perguntas de cabeçalho?
Não. Perdeu-se num passeio qualquer.
Passeou-se em outras respostas quaisquer, mas regressou para casa no ponto de viragem.
O que quer saber ao certo? Incertezas?
Quer saber memórias esmagadoras que a tragam de volta, na sua dimensão original, imperturbável e extinta.
Quer luzir e reluzir na noite iluminada de escuridão.
Quer isso tudo. É velho e sabido.
Velha é também a inconclusividade para lá do primeiro passo.
Regenere-se pois, quiméricamente, a idade perdida, em passos físicos e reais.
Uma calçada torta, e o andamento de uma leve palavra, e o nervo espreitante agachado.
A ressalva interna do vazio dissipador, e o pensamento dividido entre o que quer que fosse e vagos impulsos, quais guilhotinas contraídas.
Há aqui uma bifurcação: ora se subverte a mentira, ora se subverte o natural.
Em geral, prossegue-se, de pensamento controlado, abstraído e são.
Continua-se, e os pilares assentam, balanceando de moles.
Dão-se umas trepadelas verbais e gestuais.
Algures na caminhada, alguém que não existe os chama de moles.
Ignora-se ainda.
Ainda na caminhada, alguém que existe reage de certa e determinada maneira.
Antes da bifurcação, é dada continuidade à pureza até um certo ponto, por firmar.
Tem-se o cuidado de não sentir a reacção antes de a observar, em circunstâncias que não sejam especialmente agrestes, ou especialmente preconcebidas de um fracasso inconsciente.
É nessa altura que há o ricochete de multiplicidade.
Quando do esboço e da construção sobressai, em angariamento obreiro, um espaçamento extra e arriscado.
De súbito, em três tempos, a continuidade transforma-se num sobressalto invísivel, a construção transforma-se em continuidade exteriorizada de vigas rectílineas e o momento é um e acaba.
Fundada em hipótese, a pessoa perpassa, estranhando por vezes, ou, embalada pelos seus anos divertidos, repisa os sonhos em resposta prematura, que por isso não o é, ou, embalada pelos seus anos aborrecidos, segue em frente após denotar (sem denotar) um enfim normalizado, como o de quem remete um envelope para a caixa postal da falta de expectativa por razões de nexo.
Fundida em hipótese, a lâmpada imaginativa renega o escuro e mantém os fusíveis ateados, após o curto circuito.
Em caso de gravidade com impacto, deixa-se arrefecer o exaustor primeiro.
Redesperta-se para outro prosseguir, ora sonolento, ora de intermitente, ora de luz possante de certezas por instantes.
De regresso ao fim de página, vindo do meio da rua, o homenzinho encontrou as respostas às perguntas de cabeçalho?
Não. Perdeu-se num passeio qualquer.
Passeou-se em outras respostas quaisquer, mas regressou para casa no ponto de viragem.
sexta-feira, janeiro 20, 2006
Vindo de lá, do país das pessoas gigantes. Pulos imperiais pela anarquia do pensamento vivência. Arcaicas fachadas de subconsciente cíume. Anoraks em chuva desigual imperdoável. Vindo de lá, de lado nenhum, em partes reais a descoberto. Os gritos vindos da desembocadura para onde vão mudos. Espirro de agitação nas ossadas hipóteses, uma leitura segunda. A escrita da reflexão borracha. O lápis esqueleto em sociedade. O perigo da esquina afia, e o carvão tatuado. A onda gigante lavagem, por entre gordura espessa acumulada. A saúde em mar internado. Bóias capacetes. Meia-ideia vertigem rombo no casco, em processo pirâmide. Cor confusa de difusão arco-íris. Aritmética cosmética em quadros. Jaulas e animais mágoas. Impotências divididas entre partos petroleiros e abortos derrames. Um filho de lá no mundo cá sem mundo mundo.
terça-feira, janeiro 17, 2006
sexta-feira, janeiro 13, 2006
E agora, estou no ressequir do vício, e espero que a pulsação vital da alma abrande, para de mais sonhos me enlear. Estou no culminar do princípio da noite, que se funde com o nascer do sol nesta linha de texto. Pouco iluminado, escrevo e sou chato, sou forçado e sou indiferente a tudo isso, enquanto coço as horas barbeadas pela lâmina do crime. Agrido os sons sem gaguejar, fervo as ideias sem me escaldar, destruo-me, sem me ser mais que a temperatura ambiente. Enquanto me anicho, frio de tão morno, submeto a lua à pontualidade inconsequente do meu brilho sombrio e vazio. Escrevo e espero, e espero. Aos pinotes num cavalinho de embalo de madeira, sublimo o rompante sem sensação, após me adornar do vago colar reluzente na inversão conceptual costumeira e nocturna. Beijo-me, e ao colar, em carícias quase sevícias para com o substrato diluído em pré-películas invariávelmente escuras. Para não variar, babo-me solvente e degenero no ventre umbilical da mãe apática, sorrindo de impressionismo. Sobre o ausente, regenero pós e tusso-os, doentios entes fraternos da impureza. Faço-me morte enquanto a noite se desprende das malhas vivas de consistência empatogénica. Destituo-me da batuta e a orquestra cala-se em chinfrim desarticulado, marioneta das separações entre segredos interiores mas subjacentes, pela harmonia. Em eco de atrito, a aceitação do estridente deita por terra a paisagem de verde, ao que claramente acorro com o fechar das cortinas e olhares. Morro, duna dorsal, em planície de areia montanhosa.
quinta-feira, janeiro 12, 2006
Hoje, mais sonhos, a juntar aos de ontem. É sempre bonita, a materialização etérea do que, norma diurna, são meros apeteceres de imediato engavetados, nas raras vezes em que sequer se dá por eles. Hoje sonhei com mistos de um filme que houvera visto há algum tempo (aquele da Bovarinha, do Manuel d'Oliveira... devem estar a ver qual é, sim, porque somos todos muito entendidos em matéria de cinema português, veneramo-los, aliás deveras.), (e que bela, divina actriz, aquela Leonor Silveira), e com uma viagem de carro, envolto de gente antiga e sem apreço pela minha presença. Mas naturalmente é no pormenor impossível de recriar que está a riqueza por contar. A verosimilidade do decorrer, mesmo nos seus espasmos de ficção pura ou peripsicótica, e ainda mais, a verosimilidade da entranhada comunicação em bermas de conflito. Tudo isto dá aos sonhos uma textura de vida densa de tricotar. Como todos sabem, de resto... Ontem, sonhei com algo mais. Um andar no Chiado, e da janela, uma outra pessoa antiga, em vias de abismal desespero na estrada abaixo, disperso na intensidade da escassez de esgares, e em comunhão com os seus ouvidos surdos e suicidas, em discussão apagada mas acesa com alguém que pretensamente se lhe dirige, saturando-a em acréscimo. Arranco-a por uns momentos da travessia, e desco, e subimos, e descemos, e pelo meio, uma também interacção em insuficiência, contudo esta à partida, e por natureza, sem negatividade, sob um signo de alguma amizade, apenas poluída pelo desenrolar dos nervos, pela tomada de consciência do vago no entendimento, da dispersão das mensagens, e até mesmo do seu processo de criação em mim. Revejo, em aflitiva impotência, a medida dos momentos em transbordo de névoa que não consigo esclarecer. E ao mesmo tempo a vontade de não ser a sobrecarga da cabeça em implosão alheia, a vontade extrema de até poder fazer algo por isso... e a tendencial antítese disto, que é o momento resultante, e a chuva de antecipações de uma presença escusada e a mais. Mas tudo regulado pelo realizador sonho, de forma a não cair em demasia de exageros. Interessante.
Invasão e libertação
(varre-se o espaço potencial)
A intensidade que abarca
e navega embora
é pesada como uma arca
quando chega a hora
de a fechar ou abrir.
Pesa como o eclodir
de antecipações
feitas de limitações,
que apertam, revolvem
e desencaixam
a postura - súbitas vêm
e as costas rebaixam.
Do reinventar da forma,
o evento torna-se
apagado, pão sem fôrma,
sem festim. Torna-se
a tremer o desengano,
a drenar a paciência
do caule do gordo ano.
Assim se planta a demência.
Incontidos, os nervosos
piscares de olhos
e de reflexos pavorosos
são dos pães os môlhos
únicos e bolorentos,
os vagos adventos
do acentuado na frase.
São da ânsia mais uma fase.
Agito-me e cuspo-me.
Refuto com nojo
a paranóia e dispo-me
de complexo. Alojo
novo parque com lugar
para as viaturas
da poesia por criar
nos livros de capas duras.
(varre-se o espaço potencial)
A intensidade que abarca
e navega embora
é pesada como uma arca
quando chega a hora
de a fechar ou abrir.
Pesa como o eclodir
de antecipações
feitas de limitações,
que apertam, revolvem
e desencaixam
a postura - súbitas vêm
e as costas rebaixam.
Do reinventar da forma,
o evento torna-se
apagado, pão sem fôrma,
sem festim. Torna-se
a tremer o desengano,
a drenar a paciência
do caule do gordo ano.
Assim se planta a demência.
Incontidos, os nervosos
piscares de olhos
e de reflexos pavorosos
são dos pães os môlhos
únicos e bolorentos,
os vagos adventos
do acentuado na frase.
São da ânsia mais uma fase.
Agito-me e cuspo-me.
Refuto com nojo
a paranóia e dispo-me
de complexo. Alojo
novo parque com lugar
para as viaturas
da poesia por criar
nos livros de capas duras.
quarta-feira, janeiro 11, 2006
Ena pá. Hoje e agora estou contente por não sei quê, não sei quem. Sinto uma presença aqui mesmo atrás de mim, a acariciar-me as costas com o seu bafo quente e nostálgico. Mais invisível que irreal, esta saudade transcrita em imaginação vívida e aconchegante, tanto que a sinto pairar no mesmo sobre que a minha aura.
A sensação física, tão intrínseca e, portanto, psicológica... Um completo baralho de emoções e de descartados desassossegos. Em prenúncia do sono, mas sem o banal da luz e cabeça apagadas. A parte boa de todas as partes do todo, espalhando-se quais bactérias de apego afagando o sangue sem difuso dos momentos, o aglomerado de uma manhã independente do sol que a noite esconde ainda, algures. Tão distante quanto a efemeridade disto tudo, tão futuramente imponente quanto a longevidade disto tudo.
Uma vaga pena do inevitável. Mas curta, para não interromper todo este evitar, de um raro dócil, tão raro quão absoluto, dissolvendo todos os antagonismos no fluxo viral desta doença sublime. O rancor adoeceu na noite fria.
E enquanto o corpo dá sinais de substancial, avizinho-me da próxima divisão, mais sonolenta e ilegível. Esvaio-me enquanto perdura algum fantástico, de mim para lá de mim, mas sempre em mim. Que bom, ser um mundo e a camada de ozono de um mundo enquanto dura. Que bom, ser vítima da Biologia de carne, osso, e supra-real. Que bom, um bom completamente desarticulado, não fora o retiro implícito, em amálgama solene e sumarenta, das geometrias. Deformo-me em bom e rebolo-me. Pontapeio piões sem tontura, embrião na cama. Volteio-me sonhador.
Não páro nem prossigo, enquanto o meu espanto reconhece que, aqui, valho a pena. Indescritível valho a pena. Apesar.. apesar... apesar de..... apesar de nada. Neste aqui sem apesar, valho a pena.
A sensação física, tão intrínseca e, portanto, psicológica... Um completo baralho de emoções e de descartados desassossegos. Em prenúncia do sono, mas sem o banal da luz e cabeça apagadas. A parte boa de todas as partes do todo, espalhando-se quais bactérias de apego afagando o sangue sem difuso dos momentos, o aglomerado de uma manhã independente do sol que a noite esconde ainda, algures. Tão distante quanto a efemeridade disto tudo, tão futuramente imponente quanto a longevidade disto tudo.
Uma vaga pena do inevitável. Mas curta, para não interromper todo este evitar, de um raro dócil, tão raro quão absoluto, dissolvendo todos os antagonismos no fluxo viral desta doença sublime. O rancor adoeceu na noite fria.
E enquanto o corpo dá sinais de substancial, avizinho-me da próxima divisão, mais sonolenta e ilegível. Esvaio-me enquanto perdura algum fantástico, de mim para lá de mim, mas sempre em mim. Que bom, ser um mundo e a camada de ozono de um mundo enquanto dura. Que bom, ser vítima da Biologia de carne, osso, e supra-real. Que bom, um bom completamente desarticulado, não fora o retiro implícito, em amálgama solene e sumarenta, das geometrias. Deformo-me em bom e rebolo-me. Pontapeio piões sem tontura, embrião na cama. Volteio-me sonhador.
Não páro nem prossigo, enquanto o meu espanto reconhece que, aqui, valho a pena. Indescritível valho a pena. Apesar.. apesar... apesar de..... apesar de nada. Neste aqui sem apesar, valho a pena.
domingo, janeiro 08, 2006
Hoje não estou para sentimentalismos perdidos de antemão no exacerbado da frase. Não estou numa de carregar os momentos de um fardo poético ou estilístico. Não estou para me contrabandear em negócios a milhas da China silente. Por isso, em tom pouco surpreendentemente antagónico (sou-me previsível), não vou postar.
:P
:P
Atalhos
Na estrada do falso, em implantes
de adoração, um novo cadafalso.
Como o voo de um faisão, os amantes
perseguem-se altivos e cruéis
nos seus despiques lascivos,
em quartos empíricos de hotéis.
Passa para o impulso a convulsão
da mente, do coração para o pulso
a força carente em sagrada união.
Pouco matrimonial, a identidade
dos humanos é a parelha sazonal
que une, em planos de sonoridade,
o timbre à boca, a voz à língua,
em metáfora rouca, quase louca,
de apagar, por fora, a míngua.
Em escala preliminar, a imagética
soluciona toda a surdina do pensar
quando equaciona os berros do olhar.
Porém, na falácia de observarem bem,
no patamar do activo, da experiência,
focam-se no trancar da divisão além,
e cerram a paisagem que existira,
por dimensionar, em inútil embalagem.
De um atalho o tomar é adiar a ira.
Na estrada do falso, em implantes
de adoração, um novo cadafalso.
Como o voo de um faisão, os amantes
perseguem-se altivos e cruéis
nos seus despiques lascivos,
em quartos empíricos de hotéis.
Passa para o impulso a convulsão
da mente, do coração para o pulso
a força carente em sagrada união.
Pouco matrimonial, a identidade
dos humanos é a parelha sazonal
que une, em planos de sonoridade,
o timbre à boca, a voz à língua,
em metáfora rouca, quase louca,
de apagar, por fora, a míngua.
Em escala preliminar, a imagética
soluciona toda a surdina do pensar
quando equaciona os berros do olhar.
Porém, na falácia de observarem bem,
no patamar do activo, da experiência,
focam-se no trancar da divisão além,
e cerram a paisagem que existira,
por dimensionar, em inútil embalagem.
De um atalho o tomar é adiar a ira.
sábado, janeiro 07, 2006
Talvez
Estou sempre em mudança
a caminho de acolá.
Não sei porque dança
a minha mente, maná
de esoterismos milhentos.
Procuro mentiras fáceis,
talvez. Procuro pôr acentos,
de vez, nas horas a mais,
talvez. Não procuro nada,
e isso aflige-me. Talvez.
Talvez pão, talvez empada,
talvez, talvez, talvez...
Por fermentar desta incerteza,
o centeio da minha vivência,
e talvez, quem sabe, a beleza
de um sabor meu em conivência
com a demanda que acarreto.
Mas talvez, quem sabe, seja
este mesmo fervilhar no espeto
o fermento que o poema almeja -
talvez, quem sabe, o português
da minha voz quando interrogada.
talvez, talvez, talvez...
Calo-me farto da encruzilhada.
Estou sempre em mudança
a caminho de acolá.
Não sei porque dança
a minha mente, maná
de esoterismos milhentos.
Procuro mentiras fáceis,
talvez. Procuro pôr acentos,
de vez, nas horas a mais,
talvez. Não procuro nada,
e isso aflige-me. Talvez.
Talvez pão, talvez empada,
talvez, talvez, talvez...
Por fermentar desta incerteza,
o centeio da minha vivência,
e talvez, quem sabe, a beleza
de um sabor meu em conivência
com a demanda que acarreto.
Mas talvez, quem sabe, seja
este mesmo fervilhar no espeto
o fermento que o poema almeja -
talvez, quem sabe, o português
da minha voz quando interrogada.
talvez, talvez, talvez...
Calo-me farto da encruzilhada.
Em obscenidade satírica,
crivado de necessidade
pelo olhar perfeito
de uma lâmpada pouco forte,
artefacto suave
da iluminação obesa,
martirizo-me em vigilâncias
de olhares imperfeitos
numa mente-viela escurecida,
em desígnio ilustrativo.
Sou-me, imagem, na acepção
do que me seria, imagem,
e danço em papel virtual,
solene, à escuta
de passos abafados,
tímido de concretas sonoridades
durante as variações do monótono.
Pinto-me manchas coloridas
e sardentas, personificadas
no papel impessoal
da noite serena,
de uma obscenidade amena,
como quem viola tântrico
as roupas desbotadas de pudor
na sexualidade da obra,
mescla orgíaca e mestiça
de olhares rompantes e belos.
Visões do mérito na hora
dão forma etérea ao etéreo
interior da hora interna
ao relógio que pulsa sangue
e esboça visivelmente individual
a dissolução do palpitar
na irrigação invisível.
Brindo-me em sonho passante
sem treva, e esclareço
os sentidos sob débil iluminação.
Leio-me a outra face da moeda
inconstante e sorrio no seu reflexo
enquanto não cai, ressacada.
Suspiro as redondezas
em tom de liberdade
e destruo citadinas fortalezas
sem ser preciso fazer nada.
Obedeço-me sem ordem
num papel em flor
em campos perfumados de mim.
Estóicas conquistas da paz.
Penduro-me aqui.
Perduro-me.
crivado de necessidade
pelo olhar perfeito
de uma lâmpada pouco forte,
artefacto suave
da iluminação obesa,
martirizo-me em vigilâncias
de olhares imperfeitos
numa mente-viela escurecida,
em desígnio ilustrativo.
Sou-me, imagem, na acepção
do que me seria, imagem,
e danço em papel virtual,
solene, à escuta
de passos abafados,
tímido de concretas sonoridades
durante as variações do monótono.
Pinto-me manchas coloridas
e sardentas, personificadas
no papel impessoal
da noite serena,
de uma obscenidade amena,
como quem viola tântrico
as roupas desbotadas de pudor
na sexualidade da obra,
mescla orgíaca e mestiça
de olhares rompantes e belos.
Visões do mérito na hora
dão forma etérea ao etéreo
interior da hora interna
ao relógio que pulsa sangue
e esboça visivelmente individual
a dissolução do palpitar
na irrigação invisível.
Brindo-me em sonho passante
sem treva, e esclareço
os sentidos sob débil iluminação.
Leio-me a outra face da moeda
inconstante e sorrio no seu reflexo
enquanto não cai, ressacada.
Suspiro as redondezas
em tom de liberdade
e destruo citadinas fortalezas
sem ser preciso fazer nada.
Obedeço-me sem ordem
num papel em flor
em campos perfumados de mim.
Estóicas conquistas da paz.
Penduro-me aqui.
Perduro-me.
Fito um muro. Reflicto nas poesias fartas e absortas na vontade de se estar absorto. Durmo de concentração e solene esvaio-me em simplicidade, dorida ao de leve. Aclareiam-se-me as emoções de um aferrolhar estonteante enquanto me busco quimérico em falta de memórias. Dois, três, talvez quatro sinais do prévio reluzem pouco distintos, e o meu cérebro é possuído por uma luz que asfixia a cor do neurónio. Pinto-me baço na noite corrida, o nada em corrimento. Agarro-me torto ao corrimão mole e tento rasgar o meu papel de habitante domiciliário com mãos histéricas. No oxigénio um palpitar demasiado. Se assento, desconsolo. Além do mais, mas de tudo o menos, uma obrigação distante na mesa anexa. Mas se, no decurso de ultimamente, já deixei esvoaçante esta outra, preponderante búsilis de humidade seca... Fiz mal. Forçaram-me a cabeça na abertura mínima sem espaço, de ideias tornadas tempo estéril e de rituais disciplinares em dias torpes e submissos. Obrigaram-me a uma anestesia falsa, enquanto a estrutura se recompunha básica e vincada por ruína em cima do ex-Pedro. Saltearam-me o banco de poupanças assaltantes e próprias. Numa bifurcação que se calhar nem existe, interrogo-me talvez estúpido qual das vertentes do espelho indefinido me garante. Tudo a traços ajoelhados em borrão. Que dor de vazio, que dor de passado, que dor de dor...
Ontem, de madrugada:
Calma implosão
Moreno selvático com brio
ao espelho de luz parcial
e brilhante,
faço-me forte numa calma sem sono.
Descalço as etnias da sensação
e escorrego brusco.
Afundo a palma da altivez
na minha mão cega
e berro sem Deus.
Em Odisseia sem Graal obtuso
abarco a lividez de viagem
e assumo-o, tornado forte.
Obtuso tornado natural num revolver
de ânsias meridionais
e inteiras.
Ameaça franca do revólver imaginário,
em crimes no papel menos liso
e coretos de raiva.
Aspiro bocal o terreno platónico
numa espera ciclónica de cobertor
e a nocturna proximidade do fim adiado.
Calma implosão
Moreno selvático com brio
ao espelho de luz parcial
e brilhante,
faço-me forte numa calma sem sono.
Descalço as etnias da sensação
e escorrego brusco.
Afundo a palma da altivez
na minha mão cega
e berro sem Deus.
Em Odisseia sem Graal obtuso
abarco a lividez de viagem
e assumo-o, tornado forte.
Obtuso tornado natural num revolver
de ânsias meridionais
e inteiras.
Ameaça franca do revólver imaginário,
em crimes no papel menos liso
e coretos de raiva.
Aspiro bocal o terreno platónico
numa espera ciclónica de cobertor
e a nocturna proximidade do fim adiado.
quarta-feira, janeiro 04, 2006
Ontem, de madrugada:
Vaivém de desejo
Lá estou eu, sempre a querer,
como se eu não me chegasse...
A igreja quer burburinhos:
rezas, súplicas, meninos
a chorar... por isso lhe tocam os sinos.
O ovo quer pintainhos.
Se a galinha o vemos a chocar,
é porque ele precisa muito de rachar.
O jardim quer abelhinhas
a voar. Musical, deixa-se florir
de cores cantantes para o ar ouvir.
Basta, basta! Tudo leva a crer
que com o desejo tudo tem um enlace.
O que me leva então, plantas minhas,
a vos regar com sumos de cansaço?
Que árvore frondosa e invísivel tem um laço
com este meu voo tão surdo aos galinheiros
que se chilreiam destinos para onde quer que eu vá,
polinizando em mim o nascimento de um "Bah"?
Na gema da aflição, busco isqueiros
que religiosos me alumiem o prédio
cuja construção tilinte contra o tédio.
Mas, nas suas paredes, leio a frase:
"lá estou eu, sempre a querer"...
Vaivém de desejo
Lá estou eu, sempre a querer,
como se eu não me chegasse...
A igreja quer burburinhos:
rezas, súplicas, meninos
a chorar... por isso lhe tocam os sinos.
O ovo quer pintainhos.
Se a galinha o vemos a chocar,
é porque ele precisa muito de rachar.
O jardim quer abelhinhas
a voar. Musical, deixa-se florir
de cores cantantes para o ar ouvir.
Basta, basta! Tudo leva a crer
que com o desejo tudo tem um enlace.
O que me leva então, plantas minhas,
a vos regar com sumos de cansaço?
Que árvore frondosa e invísivel tem um laço
com este meu voo tão surdo aos galinheiros
que se chilreiam destinos para onde quer que eu vá,
polinizando em mim o nascimento de um "Bah"?
Na gema da aflição, busco isqueiros
que religiosos me alumiem o prédio
cuja construção tilinte contra o tédio.
Mas, nas suas paredes, leio a frase:
"lá estou eu, sempre a querer"...
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